RÚSSIA VERSUS UCRÂNIA – QUE GUERRA È ESSA?

Em meio à guerra desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia, não é fácil encontrar espaço para análises históricas e políticas. Sentimentos de desânimo, raiva ou frustração prevalecem sobre uma tragédia que deveria e poderia ter sido evitada. Ao mesmo tempo, as responsabilidades que o presidente Putin assumiu ao fazer uma escolha tão perversa são evidentes para todos. Nenhuma das razões apresentadas por Moscou para invadir a Ucrânia, violando a soberania nacional e o direito internacional, parece convincente e bem fundamentada. Mesmo países que apoiam a Rússia em seu desafio ao Ocidente, como a China, evitaram entrar em muitos detalhes.

Escultura símbolo da antiga URSS

No entanto, é necessário fazer um esforço analítico para compreender um evento que pode alterar substancialmente as estruturas e os equilíbrios globais, afetando sobretudo o destino da Europa. Parece-me que devem ser distinguidas três questões: 1. as raízes do conflito 2. a dinâmica da crise entre a Rússia, a Ucrânia e a União Europeia (UE). 3. A nova estratégia de Putin.

1. A primeira consideração a ser feita é que as raízes do conflito remontam à época do colapso da União Soviética. As relações que então se estabeleceram entre a Rússia e os demais países nascidos da dissolução do império, a começar pela Ucrânia, não foram inseridas em um quadro europeu mais amplo, mas apenas codificadas em uma frágil Comunidade de Estados independentes cujo destino não era muito esperançoso. Por cerca de uma década a Federação Russa e a Ucrânia seguiram trajetórias paralelas, unidas por questões como a reconstrução de uma identidade nacional, o distanciamento do passado comunista, a conturbada recuperação econômica após a transição para o mercado, a construção de bases democráticas, por mais frágil que fossem.

A desnuclearização da Ucrânia e a entrega de grande parte da frota à Rússia foram as conquistas mais importantes nas relações bilaterais. No entanto, o risco de uma divisão da Ucrânia entre os polos de atração e influência representados pela UE e pela Federação Russa (FR) já era evidente no final do século, como apontou na época um dos observadores mais atentos, Anatol Lieven. As trajetórias dos dois países começaram a divergir em 2004, quando a “revolução colorida” desencadeou em Kiev um impulso democrático de baixo para cima, que lembrou a longa onda de 1989 e implicou uma clara tendência à europeização. Suas consequências foram o enfraquecimento dos componentes pró-russos nas classes dirigentes do país e o início de uma forte polarização e instabilidade política.

Imagem dos protestos de 2014 na Ucrânia

Ao mesmo tempo, o advento de Putin em Moscou imprimiu uma repressão semiautoritária, destinada a conter o poder excessivo das oligarquias e restaurar a autoridade do Estado, mas também reivindicar de fato uma esfera de interesse russa no pós-guerra no espaço pós-soviético, o chamado “vizinho estrangeiro”, dada a presença de minorias linguísticas russas que permaneceram fora das fronteiras da Federação. Em 2005, Putin expôs seu famoso julgamento sobre o colapso soviético como “a pior catástrofe geopolítica do século XX”, aludindo à perspectiva de recuperar um papel influente para a Rússia na Eurásia. A Ucrânia representava o centro de gravidade dessa visão pós-imperial, claramente em rota de colisão com as perspectivas de alargamento da União Europeia.

2. As relações entre a UE e a Rússia nunca enfrentaram e resolveram directamente este nó, produzindo documentos retóricos que evitaram o cerne do problema. O problema da ligação da Ucrânia com a Europa esteve na origem da crise de 2014, quando eclodiu o protesto na Praça Maidan causando a queda do governo Janukovic que tinha decidido renunciar ao tratado de associação com Bruxelas. Nesse ponto, a polarização interna passou para o nível internacional. Putin viu a virada pró-europeia ucraniana como um golpe de Estado orquestrado pelo Ocidente. Moscou alimentou a reação armada secessionista na parte oriental do país e a Crimeia foi anexada à Federação Russa, resultando na adoção de sanções pela parte ocidental. Os acordos de Minsk, que previam a autonomia das regiões de Donbass, eram mais uma trégua do que uma solução real e deixavam espaço para uma guerra civil latente. É difícil admitir que, nos oito anos que se passaram desde então, algum dos protagonistas dessa crise tenha realmente buscado o caminho para a paz.

Para “defender” a Rússia, Putin declara guerra a Ucrânia

3. O discurso com o qual Putin desencadeou as hostilidades, em 24 de fevereiro de 2022, marca uma virada decisiva. Ele fez uma síntese de argumentos históricos e geopolíticos já utilizados anteriormente, mas também deu um salto qualitativo. Sua narrativa metahistórica sobre os laços especiais entrelaçados no passado entre os dois países visa, na verdade, negar agora qualquer legitimidade à existência da Ucrânia como Estado-nação. Não é por acaso que se difundiu como uma nova polêmica antileninista, visando negar o princípio da autodeterminação nacional e o indicando como causa da dissolução da União Soviética. A referência a um passado idealizado serve, assim, para traçar os contornos de uma cultura política bastante distinta da herança comunista (ou melhor, do que poderiam ter sido seus elementos progressistas), exceto pela necessária ligação com a Segunda Guerra Mundial (que é transparente nas acusações de neonazismo contra o nacionalismo ucraniano e certamente toca profundamente a população russa). Em vez disso, seu discurso alude a um passado imperial como o “espaço espiritual” da nação russa, um axioma empregado contra a ideia da historicidade das identidades nacionais e contra o princípio universalista da democracia.

Em essência, Putin abandonou o projeto de federalizar a Ucrânia, limitando-se a criar, pela força e de fora, repúblicas autônomas no leste do país, com o objetivo de desestabilizar o Estado ucraniano por meio de uma intervenção armada em larga escala. Não deixou de recorrer aos argumentos usuais baseados na segurança nacional e na ameaça que representa a expansão da OTAN para o Leste. Essa visão, bastante repetida, foi muitas vezes descartada no Ocidente como meramente instrumental, mas mesmo antes do advento da Putin no poder havia uma percepção negativa da expansão da OTAN na Rússia. O problema é que Putin assumiu essa síndrome de segurança, real ou presumida, ultrapassando qualquer visão realista e, de fato, parece ter perdido o senso de realismo que o caracterizou no passado. Qual é então a sua estratégia? Devemos pensar em Putin como um novo Stalin que quer reconstituir a União Soviética? Ou como um novo Hitler, perseguindo o sonho de conquistar a Europa?

Manifestante menciona o “encontro” de Putin com Hitler e Stalin

Na minha opinião, essas interpretações superficiais só servem para confundir. Sua formatação, contudo, não é completamente insana. Ele abandonou a ideia inicial de cooperar com Bruxelas para construir um espaço eurasiano maior, centrado em Moscou. Ele acredita que a Federação Russa deve se constituir num pólo autônomo, como potência mundial, e só pode fazê-lo com o uso da força, dados os limites de sua economia em nível global, destinada a estar em condição de minoria em comparação com o Ocidente e a China. E mira precisamente para as linhas de fratura no Ocidente e no mundo, que podem abrir espaços para a influência russa (como visto no Oriente Médio). Aqui termina então a parte racional.

Pela primeira vez, Putin partiu em uma aventura perigosa, precisamente porque nem todos os objetivos são claros. Nos primeiros dias da guerra, a resistência ucraniana, que claramente desdenhou, os múltiplos sinais de dissidência na Rússia, a dureza das sanções ocidentais abriram vários cenários possíveis. Mas, infelizmente, o cenário apocalíptico evocado por Putin em seu discurso ainda permanece como possível.

Conclusões

O poder de Putin passou por uma gradual mas significativa involução autoritária na última década, coincidindo com a conjuntura global pós-2008 – em síntese: o declínio da globalização ocidental e a emergência de uma ordem multipolar. Mas essa involução também revela permanências de longa duração. Em primeiro lugar, a continuidade da ideia de grande potência como pilar de consenso no país, que Putin encarnou desde o início e que (muito mais do que modernização econômica) se tornou o terreno sobre o qual se buscou superar a humilhação sofrida após o colapso soviético (empobrecimento, rebaixamento, marginalidade). Não nos esqueçamos, em particular, que nos últimos quarenta anos as classes dirigentes russas desencadearam uma série quase ininterrupta de guerras, com a única exceção dos anos Gorbachev (Afeganistão 1979, duas guerras na Chechênia 1994 e 1999, quando surge a figura até então desconhecida de Putin, Geórgia 2008, Ucrânia 2014 e hoje); em outras palavras, a era pós-guerra fria nunca foi pacífica para a Rússia e a militarização certamente enfraqueceu a sociedade civil.

Imagem icônica da resistência ucraniana

Entre as permanências cruciais, destaca-se a síndrome da segurança herdada do passado e interligada com o regime interno, que o levou a ver os caminhos da democratização da Ucrânia como um perigo de contágio, gerando a paranóia da perda de controle e o fantasma da quinta-coluna interna, o que transformou o espaço político russo de uma democracia limitada, com um parlamento esvaziado de poder, em um regime que prende opositores e num modelo iliberal baseado na primazia da autoridade do Estado sobre os direitos dos cidadãos.

Era inevitável? Talvez não, seguindo o instinto dos historiadores, ainda que não seja simples dizer quando e como se poderia ter feito algo diferente.

Mas falando de história, não acho que faça sentido repropor o contraste entre firmeza e relaxamento, hardliners e appeasers. O automatismo entre o alargamento da UE e a expansão da OTAN para o Leste não funcionou como um impedimento e provavelmente alimentou reações hostis que o Ocidente ignorou (além disso, criando as condições para uma aliança estratégica entre a Rússia e a China que pode mudar radicalmente a ordem mundial). Ao mesmo tempo, a interdependência econômica e energética entre a UE e a FR não funcionou como forma de dissuasão e alívio das tensões geopolíticas, ao contrário do que se esperava, em vários países europeus. E, mais uma vez, nos últimos dias foi dito, com razão, que a guerra de Putin na Ucrânia é um ataque à democracia, mas o quanto isso nos ajuda a pintar um mundo dividido entre democracias e autocracias? Acho que devemos lembrar também neste momento que o ataque às democracias também vem de dentro delas, gerando paradoxos: um dos maiores inimigos de Putin é a Polônia, país que expressa um governo iliberal, tolerado dentro da UE, e entre seus amigos (apesar da guerra) inclui-se o ex-presidente dos EUA Donald Trump, que também pode ganhar as próximas eleições…

A imagem de Putin sob a neve na Ucrânia

Sob esse aspecto, a retórica da “compactação do Ocidente” em contraposição à nova “Cortina de Ferro”, que a mídia difunde desenfreadamente, seria melhor se fosse deixada para a memória da Guerra Fria. Ninguém deve ter dúvidas sobre a condenação de Putin como agressor e a necessidade de fazer todo o possível para resistir ao seu ato de força brutal. Mas, a guerra da Rússia na Ucrânia está destacando características muito diferentes. Mostra-nos que os sonhos utópicos de uma globalização sem política e de um mundo moldado à imagem do Ocidente, cultivado após o fim da Guerra Fria, agora se desvaneceram no ar. Que o desejo e as razões de liberdade existem e se generalizam em nível global e não são exportadas do Ocidente, como afirma a propaganda na Rússia e na China. E que novas respostas são possíveis na Europa, se as prioridades de segurança derem vida a algo mais lúcido, ou seja, a autênticas prioridades políticas e não apenas econômicas e monetárias, no perfil e na identidade da União Europeia.

(Esse texto é a base de uma exposição feita pelo autor para a Scuola Normale Superiore de Pisa, intitulada “La guerra de Putin in Ucraina: considerazione storiche e politiche“, em 01 de fevereiro de 2022, e que pode ser acompanhada pelo YouTube: https://youtu.be/wA45Q_n11LE; tradução de Alberto Aggio)

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  • Muito interessante a aabordagem histório-social envolvendo esse conflito, que procuro entener como num conflito que se desencadeia há décadas entre o ocidente com a prerrogativa da ucrania desejar ingressar na otan, mas como um estado apoiado pelas potênciAS OCIDENTAIS A SOBERANIA DA rÚSSIA. AO MESMO TEMPO UMA AMEAÇA Á CHINA E AO iRÃ. O PROPÓSITO RUSSO COMO POTÊNCIA NUCLEAR E LOCAL, NO ORIENTE, TAMBÉM SE TRADUZ NUMA AMEAÇA AOS INTERESSSES ÁS POTÊNCIas ocidenTais. o mais emblemático é uma certa unidade da eum esquerda ainda nostálgica a uma ‘”união Socialista de um Estado soviético”, que não ainda não se desfez de um poder bélico, monopolista e simultaneamenbte obter o controle e o monopolio de um oriente em desalinho.

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