QUAL O DESTINO DA SOCIEDADE DO TRABALHO?

O sociólogo francês André Gorz escreveu o livro Adeus ao proletariado: Para além do socialismo (Forense Universitária, 1982). O centro argumentativo do livro batia de frente com a tese marxista da centralidade do trabalho na ontologia do ser social. O cientista social brasileiro Ricardo Antunes, respondeu a Gorz em “Adeus ao trabalho?” (Cortez, 1995), afirmando que o mundo do trabalho sofreu mutações, mas que o espaço laboral seguia tendo protagonismo nas sociedades modernas. Antunes rejeitou teses como a do consagrado filósofo alemão Jürgen Habermas, que substituía a centralidade do trabalho pela centralidade da comunicação.

Operários em industria metalúrgica (séçulo XX)

O fato é que o mundo está mudando rápido e a tecnologia cada vez mais mexe nas relações de trabalho. Quando Karl Marx pensou a “mais valia relativa” já tentava discutir uma forma da produtividade (ele tratava como exploração do trabalhador) crescer mesmo sem mais emprego da força de trabalho humano. Se no século XIX e parte do XX o capitalismo está diretamente ligado às indústrias dentro de um padrão fordista, isto é, com trabalhadores especializados em grandes unidades produtivas, o século XXI avança para uma concepção produtiva com forte presença tecnológica e intensa transformação no mundo do trabalho. Enfrenta-se hoje o que chamamos de “desemprego tecnológico” ou “desemprego estrutural”, que é quando uma profissão desaparece definitivamente.

Joseph Schumpeter (1883-1950) se referia a uma “destruição criativa” dentro do sistema capitalista, que seria capaz de destruir empregos em determinadas áreas e automaticamente criar em outras, o que se revelou verdadeiro. Pense na roleta do ônibus agora dispensada em função dos cartões eletrônicos que dispensam humanos na cobrança do pagamento das passagens. Se dentro do transporte coletivo some um emprego, outros aparecem no setor de manutenção e programação da nova tecnologia. Temos um problema aqui: quando o antigo trabalhador não tem como se reinserir no mercado de trabalho por falta de qualificação. É uma outra questão a ser enfrentada, com mais investimentos governamentais em educação.

Nova fase de avanço tecnológico da indústria e aumento da produtividade do trabalho

O ponto a ser discutido é se a nova fase do capitalismo fará desaparecer o trabalho. A “etapa superior” do capitalismo – que se imaginava a última – não é o imperialismo, como Lênin propugnava em tese esdrúxula. Vivemos hoje o que podemos chamar de capitalismo informacional (o termo é de Manuel Castells, salvo engano). O centro do poder está no Vale do Silício, os lucros hoje estão na capacidade de inovação do conhecimento. A Apple anunciou seu preço: US$ 3 trilhões. Quantos PIBs de países em desenvolvimento cabem aqui? No mesmo caminho vão empresas como o Facebook e a Microsoft. Os donos do mundo hoje não são os velhos de gravata, bengala na mão e charuto. Estamos em uma fase de transição do mundo industrial para outra realidade fundada nos serviços.

Há em curso um processo de desindustrialização, com ambições de entregar o futuro nas mãos da tecnologia. A Inteligência Artificial (IA) é uma questão atual e muito séria. A IA já é uma realidade, segundo o qual novas tecnologias podem substituir pessoas usando de inteligência similar à dos seres humanos. Mas podem os robôs nos substituírem no trabalho? Se puderem, tem gente que se beneficiará. Eles não fazem greve, não engravidam e não pegam Covid. São vantagens sedutoras para empresários que querem menos problemas e custos.

Internet e laptops: uma nova realidade no espaço do trabalho

O historiador israelense Yuval Noah Harari em Homo Deus: uma breve história do amanhã (Cia das letras, 2016) narra uma série de transformações tecnológicas assustadoras acontecendo diante dos nossos olhos. Carros que dispensam motoristas e ainda são capazes de prever o melhor trajeto a ser percorrido, engenharia genética com força de prolongar nossa existência em séculos, algoritmos que em uma leitura corporal do eleitor é capaz de lhe indicar o melhor candidato a ser votado. São inovações que mais parecem ficção científica, mas é a pura realidade. O que será dos humanos?

Há hipóteses otimistas e pessimistas. É possível que a robotização da vida produza uma super-elite ociosa, poderosa e trancada em castelos urbanos, temendo a fúria de uma classe de inúteis que não vê mais como se encaixar em uma sociedade sem necessidade de trabalho humano. Mas é possível reverter as coisas a nosso favor. Reduzir a carga horária de trabalho pode nos livrar do cansaço, de doenças psíquicas e nos dar mais tempo para fazer coisas que nos dão prazer, proporcionando mais felicidade e prazer existencial.

Ainda que a primeira hipótese seja a mais provável, visto os exemplos históricos de ganância e egoísmo da nossa espécie, não podemos descartar a possibilidade real de construirmos um futuro melhor. Certamente não conseguiremos esse triunfo deixando tudo a cargo da autorregulação dos mercados. O mundo liberal globalizado que traz benefícios na conexão de informação e na partilha de conhecimento é o mesmo que oferece desigualdades regionais no planeta, com os países pobres inseridos de forma desvantajosa na competição global.

Pode-se imaginar que um desfecho positivo para todos passa por algum tipo de regulação internacional, em instituições que talvez ainda devam ser pensadas e construídas. Mais uma vez devemos retornar a discussão sobre o papel do Estado-Nação e das soberanias nacionais. De novo, é a política o instrumental a ser mobilizado na ambição ainda presente de alcançarmos o bem comum.

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