PANDEMIAS, DEMOCRACIAS & REPÚBLICAS

Cólera, a despeito de algumas discussões entre nós historiadores, é geralmente aceita como uma doença inteiramente nova no século XIX, pelo menos para a Europa e a América. Tendo sida identificada em Bengala desde a Antiguidade e observada nas campanhas de Alexandre, o Grande, e depois por outros viajantes para a Índia, só veio para a Europa como resultado da abertura de novas rotas comerciais através do Afeganistão e da Pérsia após a conquista britânica do norte da Índia, saindo assim de Bengala em 1817.

Pandemia e morte na Idade Média

Em meados da década de 1820, foi interrompido o suposto cordão sanitário militar estabelecido pelos russos, mas o comércio seguiu crescendo na região e, em 1827, a cólera estava movendo-se ao longo do Volga e chegando a São Petersburgo; daí para Alemanha em 1831 e Grã-Bretanha e França em 1832.

Assim que chegou à Europa, a cólera rapidamente se alicerçou em outro aspecto decisivo da sua expansão no século XIX. A industrialização ajudou a mover a cólera rapidamente de um lugar para outro, primeiro ao longo dos rios e canais que eram as principais artérias de transporte nas décadas de 1820 e 1830, e, em seguida, ainda mais rapidamente ao longo das linhas ferroviárias que começaram a ser construídas em toda a Europa a partir da década de 1840. Um processo que seria brilhantemente sintetizado num famoso texto de 1848 que expressou o sentimento de que “tudo que era sólido desmanchava no ar”.

A coincidência dessas grandes epidemias de cólera com períodos de guerra, agitação e revolução é muito óbvia para ser ignorada e foi observada em uma variedade de maneiras pelos contemporâneos. Em 1848-1849, ela seguiu as forças da ordem, incluindo mais uma vez as tropas russas, que ajudaram a derrotar a Primavera dos Povos. A coincidência não passou despercebida aos contemporâneos, que compararam a grande limpeza da Europa após a epidemia com o retrocesso da maré revolucionária pelas forças da reação, lideradas pela Prússia e pela Áustria.

A epidemia de 1854-1856, que de forma semelhante varreu a Europa da Rússia ao Ocidente, foi também a única que se espalhou pela Europa de Ocidente a Oriente, levada para a Turquia, Bulgária e Oriente Médio por tropas britânicas e francesas que lutaram na Guerra da Crimeia. As epidemias de 1866 e 1871 foram espalhadas pelas guerras de Bismarck para a unificação alemã. Em 1892, a cólera chegou ao oeste e depois à Europa Central com uma onda de migrantes em fuga da perseguição, em particular a perseguição antissemita na Rússia, e à procura de um novo lar na América, através do porto marítimo alemão de Hamburgo. Portanto, mais uma vez, como na história da Peste Negra, tanto a guerra quanto o comércio levaram as doenças a novas vítimas.

Industrialização na Alemanha avança no século XIX

O miasma, como era conhecido, naturalmente apelava aos interesses de qualquer estado que estivesse particularmente preocupado com os efeitos econômicos da quarentena. Por exemplo, a cidade-estado autônoma de Hamburgo, no norte da Alemanha, o maior porto marítimo do continente europeu e o mais rico do mundo depois dos de Londres, Liverpool e Nova York. O Conselho Médico de Hamburgo, sob a poderosa influência das famílias de comerciantes, garantiu ao longo das décadas de 1870 e 1880 que nenhum médico fosse nomeado para um cargo oficial, a menos que fosse adepto da teoria do miasma sobre as doenças e sua transmissão.

Em 1890, as opiniões do médico bacteriologista Robert Koch (1843-1910) haviam conquistado o Império, refletindo a virada do governo alemão de 1879 para uma maior intervenção na economia e na sociedade. Berlim estava oficialmente apoiando a teoria do contágio da cólera, colocando em prática planos para quarentenas e medidas de desinfecção, caso a doença surgisse em qualquer parte da Alemanha. Mas os poderes do governo imperial sobre os estados federados eram limitados, tal qual numa república democrática. Berlim não poderia forçar Hamburgo a aceitar seus pontos de vista.

Em agosto de 1892 a doença chegou a Hamburgo, via Rússia, em um trem de migrantes. Logo atingiu o ponto de captação de água da cidade, espalhou-se através dos reservatórios e foi bombeada para as casas de toda a cidade, antes que as autoridades médicas viessem a tomar quaisquer medidas para diagnosticar a doença nas primeiras vítimas e/ou tomar providenciais para combatê-la ou alertar as pessoas de sua presença. Logo as vítimas estavam sendo recolhidas aos milhares em lares infectados e levadas ao hospital. Em 50% dos casos nunca mais voltaram.

A legitimidade da administração do Estado de Hamburgo foi severamente atingida pela epidemia. Koch foi enviado pelo governo nacional a Hamburgo para impor quarentena, desinfecção e outras medidas, incluindo a distribuição de água não contaminada e gratuita e instruções aos cidadãos para ferver toda a água antes de usá-la — medidas que tiveram algum impacto para o fim da epidemia. Hamburgo foi forçada a reformar seu sistema de administração e nomear os adeptos das teorias de Koch para postos-chave no serviço médico.

Líder da socialdemocracia alemã discursa em manifestação

Foi notável em 1892 que as pessoas comuns em Hamburgo não levantassem objeções às medidas tomadas por Koch. Mas as classes trabalhadoras da cidade apoiaram esmagadoramente o Partido Social-Democrata da Alemanha, que, como movimento político progressista de massa, acreditava na legitimidade da ciência moderna e cooperou plenamente com Koch e as autoridades no combate à epidemia. Os efeitos políticos da epidemia não foram encontrados em protestos estéreis contra A ou B, mas na lembrança constante desse desastre pelos sociais-democratas, que apontaram, além disso, a pilhagem da administração do estado para servir aos interesses de uma minoria rica e negligenciar a saúde e a seguridade do cidadão comum. Nas eleições nacionais de 1893, todas as cadeiras do Reichstag da cidade foram para os sociais-democratas.

Essa é a lição que nos vem dessa experiência para que não fiquemos perdidos em agitações estéreis (de rua ou não só), sem repararmos que eppur si muove, que o movimento da Terra traz consigo a mudança das estações, que não sentimos, na frase famosa de Joaquim Nabuco. No entanto, este movimento de intelectuais-massa que aí está já não dá para não perceber.

Em memória do meu filho Ricardo Góes Magalhães Marinho (1988-2017), vítima de outra pandemia

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