O PONTO DE VISTA MODERNO

O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido“, Antonio Gramsci.

Sabemos que não somos eternos e temos muito pouca dúvida da nossa vocação moderna. O moderno e todo o seu séqüito de neologismos – modernidade, modernização, modernismo, pós-modernidade, etc. – já esteve muito mais em moda, tanto no discurso acadêmico quanto na retórica dos políticos. Viver o moderno nunca foi um ponto pacífico e a auto-consciência dessa experiência nem sempre se constituiu numa percepção consensual e tranqüila. Retomar uma reflexão em torno desse tema não é, do nosso ponto de vista, nada ocioso.

Mashall Berman (1940-2013)

O moderno é uma situação concreta e também um programa ideal desenhado a partir de suas potencialidades. Historicamente, o moderno inicia sua vigência no mundo ocidental por volta dos séculos XV e XVI; passa a ocupar o centro das nossas representações do mundo depois dos acontecimentos e dos resultados proporcionados pela Revolução Francesa de 1789 para, em seguida, inaugurar um vertiginoso mundo de transformações sem precedentes na História. Instaurada a modernidade, estabelece-se um mundo de paradoxos no qual se anulam “todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia”, ao mesmo tempo em que se despeja todos os homens “num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia” (Marshall Berman. Tudo que é sólido desmancha no ar, Cia das Letras, 1986, p.24).

Como um programa ideal, o moderno gerou infinitas esperanças na humanidade uma vez que orientava a compreensão do mundo a partir da idéia da mudança e de valorização da vida. O ato revolucionário que marca a emergência do moderno nos estertores do medievo europeu, superando toda a visão eclesiástica que ai imperava, foi o de estabelecer um programa de emancipação do homem fundamentado na razão e na noção de auto-determinação do individuo. Racionalidade e individualismo configuraram-se, assim, como os pilares de um novo mundo que, a partir desses fundamentos, não poderia aceitar mais a noção de destino para a vida e para a morte. Assim, o moderno introduz na História a figura inédita do indivíduo autônomo; mais à frente, o seu programa irá se alimentar de noções ideais expressas nas palavras “liberdade e igualdade” e, ao mesmo tempo, de processos político-sociais concretos semantizados como “revoluções”.

O século XIX e a primeira metade do século XX configuraram-se como o período áureo do moderno, no qual a vida parecia ser a aventura de sua construção, com os homens, conscientemente ou não, mergulhados nas entranhas dos seus paradoxos.

Contudo, a segunda metade do século XX e o inicio do século XXI acabaram por promover um ambiente problemático ao universo da modernidade. Para alguns interpretes, a modernidade desse período parece ter se afastado de suas próprias raízes; para outros, ela parece ter se esgotado definitivamente, mergulhada nos seus devaneios normativos e disciplinadores. Ambas perspectivas apontariam para a emergência de uma ruptura com a modernidade: a pós-modernidade.

Gilles Lipovetsky (1944)

Alguns outros analistas, como Gilles Lipovetsky (Tempos hipermodernos. Barcarolla, 2004) falam em uma hipermodernidade. Nessa leitura, a pós-modernidade não seria uma ruptura histórica com a modernidade. Ela estaria voltada para a narrativa da situação atual das sociedades democráticas avançadas no qual se evidenciam processos de “rápida expansão do consumo e da comunicação de massa; enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares; surto de individualização; consagração do hedonismo e do psicologismo; perda de fé no futuro revolucionário; descontentamento com as paixões políticas e as militâncias, etc” (p.14). A hiperexpressão do moderno que caracterizaria a hipermodernidade coloca em evidência um ambiente onde tudo é extremado, do consumo à sua representação simbólica; onde predominam a liberalidade, a flexibilidade e a indiferença frente aos princípios estruturantes da modernidade; enfim, um ambiente de medo, dúvida e angustias.

Nesse cenário, o horizonte de futuro é muito mais nebuloso do que antes e, nessa situação, o individuo não consegue sustentar mais o perfil hedonista e libertário dos devaneios pós-modernistas. Na hipermodernidade, ele volta a ser o paradoxo mais visível da própria modernidade: usufrui tudo o que ela possibilita, mas não tem condições de produzir, com segurança e determinação, as condições culturais, sociais e políticas que possam levar adiante a promessa da emancipação contida na modernidade. No mundo atual a modernidade continua sendo frágil. Uma suposta realização integral dela não nos tornará eternos. No entanto, tudo parece indicar que a nossa universalidade ainda mantém suas referências nas promessas anunciadas pelo moderno há séculos atrás. Perder contato com elas não faz nenhum sentido.

(Publicado como artigo de opinião em 2005, compõe a coletânea: AGGIO, Alberto. Por uma nova cultura política. Brasilia: FAP, 2008, p. 17-19)

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