O FIM DA UNIÃO SOVIÉTICA

Criada em 30 de dezembro de 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, configurou-se durante sessenta e nove anos como um dos países mais poderosos do mundo e como a segunda maior potência militar do planeta. Era composta por Rússia, Letônia, Lituânia, Estônia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Moldávia, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Usbequistão.

Lenin foi o principal líder da revolução bolchevique em 1917

Há 30 anos, em 25 de dezembro de 1991, sua bandeira vermelha, com a foice e o martelo cruzados e uma estrela amarela na sua parte superior, tremulou no Kremlin pela última vez. No dia seguinte foi substituída pelas listas azul, branca e vermelha, a mesma da velha Rússia czarista.

A troca de bandeiras simbolizou uma mudança profunda. Com a renúncia, no dia de Natal, do último dos sete chefes soviéticos, Mikhail Gorbatchev, e a posse na manhã seguinte de Boris Yeltsin, chegou ao fim a primeira experiência socialista do mundo.

O modelo soviético erodiu de forma caótica e desordenada. E a implosão ocorreu justamente porque os dirigentes do todo poderoso Partido Comunista nunca perceberam a necessidade de colocar em xeque um dos pilares do regime: o forte controle da economia pelo Estado. Rejeitaram solenemente qualquer mudança na direção de uma economia de mercado e de um arejamento político. Algo como as reformas introduzidas por Deng Xiaoping na China.

Vários são os episódios que já indicavam o fim melancólico.

O império soviético estava profundamente abalado desde agosto de 1991, quando fracassou a tentativa de golpe militar liderado pelo linha dura Gennady Yanayev. Naqueles dias, Lenin, o pai-fundador da primeira experiência comunista do mundo, caiu literalmente do pedestal, com a derrubada de suas estátuas em todo o país.

O golpe de Moscou foi uma reação da burocracia encastelada no aparelho do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) contrária à tentativa de Gorbatchev de salvar a pátria-mãe do socialismo por meio de uma reestruturação da economia – perestroika– e uma abertura política – glasnost – que questionava o monopólio do poder nas mãos do PCUS.

Tentativa de golpe de Estado na URSS e a resistência liderada por Boris Yeltsin

A rigor, do ponto de vista econômico, as reformas gorbatchevistas eram mais tímidas do que as reformas de Xiaoping na China. Porém contrariavam interesses de uma casta encrustada no aparato do estado e do partido e que se beneficiava da paralisia econômica. Antes disto, a nomenclatura já havia se posicionado no início dos anos 1960 contra o arejamento de Nikita Kruschev que havia promovido reformas relativamente liberais. Elas eram mais limitadas do que as implementadas por Gorbatchev. No entanto, as condições eram mais favoráveis e a crise econômica não havia assumido ares catastróficos.

Ali, por causa da reação dos conservadores, a União Soviética perdeu uma oportunidade histórica e entrou na era da estagnação de Leonid Brejnev. Se tivesse dado continuidade às reformas, haveria a possibilidade da URSS desaguar em um modelo similar ao da China dos tempos atuais, baseado na combinação de um setor estatal da economia com o capital privado. Os colegas de partido de Kruschev também o retiraram do poder em 1964 por achar que a eliminação do culto da personalidade e do sistema político criado por Josef Stalin tinha ido longe demais.

Desde Josef Stalin, o culto à personalidade foi uma marca do socialismo soviético

Portanto, é na economia e na concentração de poder que estão as principais explicações para o colapso da União Soviética. E a distorção do seu modelo econômico estava nas origens.

No final dos anos 1920, Stalin colocou um fim na Nova Política Econômica – NEP –  dos tempos de Lenin, que havia adotado medidas típicas de uma economia de mercado, admitindo a existência de um setor privado, principalmente no campo e no comércio. A nova política encerrou o período do “comunismo de guerra” dos primeiros anos, responsável pelo desabastecimento das cidades, e direcionou os recursos da agricultura e da indústria para o exército vermelho fazer frente à guerra civil contra os “brancos”, que desejavam restaurar a monarquia czarista.

A NEP passou a ser vista pelo ditador soviético como um “desvio de direita” que estava levando à restauração do capitalismo. O novo modelo adotado passa a ser o da economia planificada por meio dos planos quinquenais, com vistas à industrialização acelerada. A acumulação primitiva para esse processo se dá às custas da expropriação dos camponeses. E de muito sangue derramado.

Por esse caminho, Stalin transformou um país agrário e historicamente atrasado em uma potência econômica e militar, vitoriosa na Segunda Guerra Mundial. O crescimento econômico pós Segunda-Guerra levou Kruschev ao delírio de afirmar que nos anos setenta o padrão de vida na União Soviética superaria o do Estados Unidos.

M. Gorbatchev abandona o poder em 1991

Mas o país não completou o ciclo da industrialização ao não desenvolver um parque produtivo de bens de consumo, sobretudo de bens duráveis. A nação que conseguiu mandar o primeiro homem para o espaço era incapaz de produzir um sapato de qualidade. A escassez de produtos industriais, agravada por distorções na política de preços de produtos agrícolas e também na remuneração das empresas, levaria à profunda crise de abastecimento da fase terminal da União Soviética, com prateleiras das lojas vazias e filas intermináveis para adquirir itens básicos.

A União Soviética tinha perdido a batalha da inovação, embora na constituição de 1977, Brejnev tenha consignado que o país tinha ingressado na era do “socialismo desenvolvido”.  Nada mais emblemático da esclerose do seu modelo do que a gerontocracia instalada no poder. Antes de Gorbatchev, Brejnev, a partir da segunda metade dos anos 1970, e seus dois primeiros sucessores – Andropov e Chernenko – administravam o país hospitalizados, em função de seu péssimo estado de saúde.

Outra distorção pesou profundamente para o colapso da pátria mãe do socialismo real. A existência de uma complexa e cara indústria militar voltada para a corrida nuclear com os Estados Unidos. O obsoletismo tecnológico em áreas de ponta e na era em que o mundo capitalista marchava para a sua Terceira Revolução Industrial, decorreu porque a URSS, ao desempenhar o papel de polícia do mundo socialista, intervindo militarmente no Afeganistão e subsidiando o Pacto de Varsóvia, despendeu recursos que poderiam levar à modernização de sua economia.

Gorbatchev percebeu as distorções. Mas já era tarde demais. Suas reformas agravaram o desabastecimento. Ao mesmo tempo em que era respeitado mundialmente por sua contribuição para o fim da guerra-fria, era rejeitado internamente, pagando o ônus de uma crise que não se iniciou em seu governo.

A Rússia bolchevique, com sua “ditadura do proletariado” e o planejamento estatal da economia, desapareceu naquele dia de Natal e iniciou sua tardia reconversão ao capitalismo.

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