NUNCA DEIXE DE SONHAR

Em 30 de setembro de 2016 várias pessoas estavam no cemitério Herz, em Jerusalém. Entre elas o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o ex-presidente Bill Clinton e ex-primeiros-ministros como Tony Blair, reis e rainhas, líderes religiosos e dignatários de diversos países. Todos para participar do funeral de um sonhador: Shimon Peres.

Shimon Peres, o 3º em cima à direita, em Vishneva (Polónia), 1932.

Primeiro-ministro por duas vezes, presidente de seu país, cofundador de Israel, ao lado de David Ben-Gurion, e prêmio Nobel da Paz de 1994, Shimon morreu sem ver concretizado o seu maior sonho: a paz no Oriente Médio. A vida desse sonhador confunde-se com a própria história de seu país.

Agora sua trajetória é contada em um documentário disponível no Netflix: Nunca deixe de sonhar – a vida e o legado de Shimon Peres.

A mensagem de ter o sonho, como ponto de partida, para transformar a realidade e de nunca desistir de lutar por ele, torna-se extremamente atual. A guerra da Rússia e na Ucrânia reacendeu a crença de todos os que defendem a bandeira da paz. A humanidade não pode abdicar disso, sob pena de desaparecer na hipótese da deflagração de um conflito nuclear.

Sonhadores como Shimon Peres e Martin Luther King fizeram história e mudaram a própria face de seus países. O mesmo pode se dizer de outro grande pacifista, Mahatma Ghandi.

Shimon, começou a sonhar cedo. Mais precisamente quando chegou à Palestina, em 1934 – então território sob o jugo do Mandato Britânico –, e passou a lutar pela concretização das ideias de Theodor Herzl, criador do sionismo político e pai intelectual do Estado de Israel.

Os judeus perseguiam o sonho de ter um lar nacional desde sua diáspora, quando foram expulsos de sua terra e espalharam-se pelo mundo.  Viraria realidade em 1948. Nesse ano, uma resolução da ONU aprovou a criação de dois estados em um mesmo território: Israel e Palestina. A divisão não foi aceita pelo mundo árabe, dando início a um conflito que se prolonga até hoje.

A guerra volta ao centro da cena mundial com a invasão russa na Ucrânia

Shimon começou a fazer história como um beligerante, antes mesmo da constituição de Israel como estado. Ben-Gurion – incentivador da imigração ilegal para Palestina –   o encarregou de encontrar armas para a autodefesa dos judeus. Daí surgiu o embrião de um exército que, anos depois, se tornaria na maior potência militar da região.

Conquistada a formação do Estado de Israel, passou a se dedicar na transformação seu país em uma potência bélica, detentora de ogivas nucleares. Ele foi o principal formulador e arquiteto da doutrina de segurança de seu país, baseado no poder de dissuasão por meio da superioridade bélica em relação aos países árabes. Como ministro da Defesa, foi responsável pelo resgate de reféns israelenses no aeroporto de Entebbe, em Uganda.

A superioridade militar não levou à paz no Oriente Médio. Depois de três guerras, entre as quais a Guerra do Yom Kippur de 1973, cujo desfecho levou Israel a ocupar a faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golan, Shimon Peres deu uma guinada. De beligerante se transformou num pacifista. Nessa condição passou a ser o grande negociador de um acordo de paz entre israelenses e palestinos.

Sua grande obra foi a costura do Acordo de Paz de Oslo, de 1993, alcançado por meio da diplomacia secreta entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), de Yasser Arafat. As negociações oficiais realizadas em Madri não avançavam. Seriam destravadas pela negociação secreta, entre 20 de agosto e 13 de setembro de 1993. Por meio do acordo, Israel retirou suas tropas do Sul do Líbano e foi estabelecido o auto-governo da Autoridade Palestina na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

Shimon Peres, Arafat e a Yitzhak Rabin recebendo o Premio Nobel em 1994

Em 1994 o Nobel da Paz foi concedido a Shimon Peres, Arafat e a Yitzhak Rabin, então primeiro-ministro de Israel.

A Autoridade Nacional Palestina nascia como um embrião de um futuro Estado palestino, mas a paz definitiva não foi alcançada. O acordo de Oslo foi bombardeado por extremistas do Hamas.  Mas também pela extrema-direita israelense, responsável pelo assassinato de Rabin, em 1995, quando o então primeiro-ministro e Shimon participavam do maior ato público de Israel em favor da paz.

Shimon e Rabin tinham muitas divergências, mas comungavam da mesma causa. Com o assassinato de seu parceiro, passou a ser um cavaleiro da paz, levando sua mensagem aos quatro cantos do mundo, sendo ouvido pelas principais lideranças do mundo, estivesse, ou não, no poder 

A extrema-direita israelense usava o adjetivo sonhador de forma pejorativa, para defini-lo como um utópico, sem senso de realidade. Tentava ridicularizar sua visão de futuro expressa no livro O novo Oriente-Médio, no qual expressou o ponto de vista de que interesses nacionais e econômicos seriam os guardiães da paz na região.

Shimon não desistia nunca. Quando seus adversários pejorativamente o chamavam de sonhador, respondia: “Sou sonhador, então quem tem razão é quem não sonha?” E quando derrotado, dizia: “Quem sabe na próxima eu vença”.

No dia 29 de setembro de 2016 a morte o venceu, aos 93 anos. Mas não venceu seu ideal. Se hoje a ONU deu à Palestina o status de Estado Observador, deve-se muito ao seu empenho em favor da paz.

Seu legado nos inspira a nunca deixar de sonhar. Sem sonhos de um mundo sem guerra, sem fome e sem ódio, a humanidade perde a razão da sua existência.

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