MARIGHELLA, O FILME

No último dia do mandato, o então presidente Lula concedeu asilo político ao terrorista italiano Cesare Battisti, membro do grupo “Proletários armados pelo comunismo”. Mais tarde, o petista se arrependeu do ato, admitiu o erro e pediu perdão para as vítimas do “terror vermelho”, como ficaram conhecidas as ações armadas da esquerda italiana na década de 1970. Battisti e seus companheiros, precisamos ressaltar, cometeram crimes contra um regime democrático. A Itália nesse período chegou a recorrer a algumas leis duras, mas jamais rompeu com a democracia de partidos. Em 2019, Cesare foi extraditado para o país europeu, onde cumpre prisão perpétua.

Wagner Moura, diretor de Marighella, o filme

O Brasil dos anos 1960 e 1970 também viu nascer grupos armados, como a Ação Libertadora Nacional (ANL), na qual se destaca o nome de Carlos Marighella, que virou filme. A diferença de Battisti e Marighella está nos governos que combateram. No nosso país, vigorava uma violenta ditadura, com censura, assassinato, mortes e perseguições cruéis. Aqui mora o grande mérito do longa- metragem dirigido por Wagner Moura. “Marighella”, o filme, tem a virtude de revelar sem pudor o horror dos 21 anos de ditadura militar. Muitos podem se assustar quando chegarem aos cinemas e assistirem algumas cenas fortes, mas a infernal covardia do regime brasileiro foi aquilo e muito mais. Importante o cinema mostrar ao Brasil de Bolsonaro o quanto é repugnante a violação das liberdades e dos direitos humanos.

Mas há também exageros e desvios no filme. Moura abusou do maniqueísmo, ao retratar a guerrilha como um comando de Justiça, com guerrilheiros elevados à condição romântica de heróis e patriotas. O confronto entre o bem e o mal toma conta do enredo, sem qualquer tipo de problematização histórica, envolvendo, principalmente, os guerrilheiros.

Em pelo menos duas cenas, o personagem principal, interpretado por Seu Jorge, grita: “Viva a democracia!”. No entanto, o Marighella real não lutou por democracia ou democratização. Suas aspirações eram revolucionárias e seu ideal de futuro não passava por um regime pluralista e de liberdades amplas. Ele ambicionava a ditadura do proletariado, obtida pela força das armas. O Marighella de Moura é, por outro lado, quase um diplomata, apesar de seu tom alto nas primeiras cenas. No desfecho da obra, sugere-se até o reconhecimento de erro na opção pela luta armada, ainda que para depois exaltar suas virtudes de lealdade e honestidade.

Carlos Marighella, o guerrilheiro, e Seu Jorge, como Marighella no filme de Wagner Moura

O ambiente histórico da narrativa de “Marighella” é precário. O conflito entre o guerrilheiro e o PCB quase não é mostrado, com o nome do Partido Comunista omitido. Faltou espaço para a apresentação de um outro lado da resistência, ou seja, a oposição democrática, que articulava variados setores da sociedade, como religiosos, intelectuais, artistas etc. Estes batalharam contra o regime sem usar armas, utilizando as brechas do sistema. Com exceção de algumas palavras na abertura, o filme parece querer resumir esse período da história como sendo a de sonhadores honrados que partiram para a luta armada contra o Estado repressor.

O filme anuncia seu encerramento com uma cena significativa: uma guerrilheira entrando na igreja e reafirmando o recurso armado como estratégia de luta. Seria uma espécie de homenagem ao guerrilheiro herói que morria nas mãos do delegado Lúcio – o terrível Sergio Paranhos Fleury.

A história nos conta que os que recorreram à luta armada não fizeram bem os cálculos, erraram feio em seu voluntarismo. A ditadura brasileira seria derrotada em 1985 pela artificio da política. Em tempos de populismo autoritário, seria interessante reafirmar nosso compromisso com as liberdades democráticas e suas instituições, que deitam raízes no Ocidente liberal. Carlos Marighella não combateu por essa democracia. Ao contrário, sempre andou pelos caminhos de quem a desqualificou como sendo “burguesa” e nada mais.

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  • Excelente a análise. Só divirjo de um pequeno detalhe: – lula não se arrependeu nem foi enganado no caso battisti. Pra além de insincero pautou-se por lógica outra. Paz, amor e votos!

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