HISTORIGRAFIA E POLÍTICA NO DEBATE SOBRE ESCRAVIDÃO, RACISMO E IDENTITARISMO

Senhores de chicote na mão e negros no tronco sofrendo castigos físicos, trabalho exclusivamente escravo em grandes latifúndios (plantation), negros separados cruelmente de suas famílias e sem ter nenhuma parte naquilo do que produziam. Este cenário da vida colonial e imperial brasileira é o que predomina no cinema, no imaginário popular e até hoje faz parte dos currículos escolares. No entanto, novas pesquisas vêm demonstrando que a relação senhor/escravo era bem mais complexa do que se pensava.

Escravidão e trabalho no Brasil colonaial

Historiadores como Antonio Roberto Alves Vieira, João Luís Fragoso e Ciro Flamarion Cardoso trouxeram novos debates sobre este período. O trabalho no Brasil colonial não se resumiria a plantation. Havia uma diversidade laboral que incluía trabalhadores livres, pequenos agricultores e até mesmo escravos que puderam comprar a liberdade de suas famílias, e conseguiram seu próprio pedaço de terra, adquirindo, inclusive, alguns escravos. Aliás, presença de famílias entre os escravos é bem mais abundante do que sugeria a historiografia tradicional, como nos mostrou Manolo Florentino em “A Paz das senzalas”, uma leitura que recomendo.

Os castigos corporais eram, de fato, recorrentes nas plantações de açúcar, casos que não se repetiam tanto em áreas como a pecuária e outros setores da agricultura, onde negros podiam cultivar seus próprios alimentos e até venderem o excedente. Relatos como o do botânico francês Saint-Hilaire, chegam a citar escravos que andavam lado a lado de seus senhores, bebendo, cantando e dançando.

Um mito que ainda circula dá conta que a história da escravidão está relacionada de forma central a questão da raça. O Brasil escravista seria uma terra de “brancos escravizando negros”. A escravidão negra fazia parte da lógica econômica mercantil. Os escravos que chegavam nos navios negreiros eram muitas vezes negociados entre as metrópoles, traficantes e os reinos africanos (muitos destes obtiveram desenvolvimento e centralização política com a pratica de captura e trafico de negros para o cativeiro).

Como ideologia, o racismo aparece no século XIX quando as nações europeias para justificarem sua dominação sobre a Ásia e a África precisavam argumentar que as raças que ali estavam eram inferiores, e, por isso, passiveis de serem dominadas. Os tempos eram de formação da imprensa e do que hoje chamamos de opinião pública. Tal justificativa não era necessária em um ambiente onde a escravidão negra era vista como natural, como o que acontecia no Brasil escravagista. Bastava o estatuto da posse, onde mesmo cativos puderam se aproveitar, sem qualquer barreira jurídica.

Defensores da abolição da escravidão no final do século XIX

Abolição

Os debates que giram em torno das causas da abolição apresentam mitos. O movimento negro organizado tenta forçar uma leitura onde as rebeliões negras teriam sido o principal elemento para o fim da escravidão, (há, no entanto, quem diga que nas últimas oito décadas de escravidão, as revoltas de escravos haviam até diminuído). Trata-se de um exagero ideológico de quem quer heroicizar o segmento que representa. O que a maior parte dos especialistas defende é que a abolição se deu por um conjunto de elementos reunidos num longo período de tempo, que vai desde as pressões da Inglaterra até a própria divisão das elites (já) nacionais.

Sabemos, de certo, que a década de 1880 testemunhou o crescimento do movimento abolicionista que, ao contrário do que muitos pensam, não era nada homogêneo.

Em 1883 é fundada a Confederação Abolicionista, que congregava as associações abolicionistas de todo o país, presidida por João Clapp. Nos anos que antecederam sua fundação, os abolicionistas usavam de agitações literárias, panfletos e jornais eram distribuídos. Outra tática muito usada era o recurso jurídico. Advogados recorriam a uma lei de 1831 (aquela pra inglês ver) como forma de exigir a imediata libertação dos cativos. Luiz Gama conseguiu a libertação de pelo menos 1000 escravos.

Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e o fim da escravidão

Um debate interessante travou-se nestes tempos que antecederam a abolição. A publicação de O Abolicionismo de Joaquim Nabuco representou a chegada da obra mais completa sobre abolição naquele tempo. Nabuco apresentava argumentos contra a permanência da escravidão, exigia seu fim sem indenização aos proprietários. Propunha ainda reformas sociais que reintroduzisse o negro na sociedade. Sua particularidade, porém, estava no fato de acreditar que todo este processo poderia se dar de forma relativamente pacífica e parlamentar. “É, assim, no parlamento e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e praças da cidade, que se há de ganhar, ou perder, a causa da liberdade. Em semelhante luta, a violência, o crime, o desencadeamento de ódios acalentados, só pode ser prejudicial”, escreve Nabuco.

Discordando da visão moderada de Nabuco, outro grupo de abolicionistas vai incentivar ações mais radicais, entre eles está José do Patrocínio. Estes não abdicavam de ações parlamentares, mas incentivavam fugas, revoltas e até assassinatos dos senhores de escravos. A partir de 1882, surgem os caifazes, organizados pelo advogado Antônio Bento de Souza e Castro, que em alianças com outros grupos, agitavam ações rebeldes dos escravos.

Identitarismo

Em 1887, a causa abolicionista ganha apoio integral do Partido Liberal. O Partido Republicano Paulista também ingressa na causa, sugerindo que todos seus membros libertem seus escravos. O exército se recusa a capturar escravos, e o governo imperial se isola completamente. Foi então que, em 7 de maio, um projeto é enviado ao Congresso, com dois artigos, que propunha abolir a escravidão. O primeiro extinguia a escravatura e o segundo revogava as disposições contrárias. Em 13 de maio ele se transforma na lei Áurea, assinada pela princesa Isabel. A abolição é acolhida com festa nas ruas e na Senzala. Os negros estavam livres, mas abandonados a sua própria sorte; nem mesmo os abolicionistas de antes quiseram seguir a luta dos negros, que não havia terminado. Com isso, muitos ex-escravos tiveram que voltar a seus ex-senhores, trabalhando em condições semelhantes às anteriores. A escravidão do negro havia sido abolida, seu sofrimento, no entanto, não.

O identitarismo racial

O horror da escravidão deixou marcas na sociedade brasileira. A chegada da República, da industrialização e do século XXI amenizaram de forma insuficiente as perversas heranças escravagistas. A “causa negra”, então, avança significativamente na incorporação do negro pela via das políticas públicas, assim como se firma sendo núcleo de luta contra o racismo. Estabelece-se a partir de aqui, em visível ligação com o multiculturalismo, um campo de luta fragmentário orientado basicamente pela identidade da raça.

A esquerda que se movia pelo paradigma da classe e com visão totalizadora cede à divisão identitária, com o movimento negro protagonizando ações de enfrentamento a elementos da democracia republicana. Ao proclamar temas como “lugar de fala”, “apropriação cultural” e incentivar derrubadas de estátuas de escravagistas do passado, há a intenção de se criar o monopólio da narrativa, higienizar o passado e estabelecer apropriações exclusivas da cultura.

A democracia exige pluralismo, a República se vale pela igualdade de todos perante a lei. O identitarismo, que agora aparece, se move por ações de censura, vitimização e até violência. Passa longe das pretensões de se criar uma sociedade plural onde a cidadania se estenda a todos seus membros, sem privilégios.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FLORENTINO, Manolo, GÓES, José Roberto. A paz das senzalas: Famílias escravas e tráfico atlântico 1790-1850. São Paulo: Ed.Unesp, 2017.

LINHARES, Maria Yeda (org). História Geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1990.

MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de Sangue: história do pensamento racial. São Paulo: Contexto, 2009.

SCHWARCZ, Lilia, STARLING, Heloisa (org). Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Autor

Tags Do Post
Compartilhe O Post

Escrito por:

Últimos comentários
  • “Hoje, apesar de avanços a respeito, a negritude ainda é escravizada., considerados cidadão de segunda classe. Vejam bem, a lei áurea foi assinada pela princesa Isabel, os negros foram livres, porém jogados fora das senzalas, sem eira e sem beira, tendo muitos, aliás a maioria, retornado ao trabalho para os seus antigos senhores nas mesmas condições quando eram escravos. Meus irmãos, até hoje ainda continuamos escravos.”
    Muito boa a sua historiografia Adelson Vidal Alves!

    • Olá ANTONIO, OBRIGADO PELO COMENTÁRIO. Primeiramente devo dizer que a falta de políticas de reparação aos ex-escravos no 13 de maio está destacada no texto. De fato, nosso modelo de abolição não foi rapaz de introduzir os escravizados na nova realidade de liberdade. No entanto, considero exagerado, na verdade um grande equívoco, dizer que a escravidão continua. Há problemas a serem debatidos envolvendo a comunidade negra, mas não dá pra dizer que tudo segue como antes. Não só a libertação foi uma grande conquista como o próprio processo democratizante vem abrindo novos espaços para avanços no processo de inclusão. Certamente, os negros não continuam escravos. Os problemas hoje são de outra ordem. Grande abraço.
      Adelson Vidal Alves.

    • Discordo hj é muito diferente de tempos atraz ,temos que nos desprender do passado ,assim fez is judeus e hj são referência.

  • Concordo,hj quem se prepara tem espaço no mercado de trabalho,trabalhei em várias áreas e sempre vi quem estudou tinha as melhores oportunidades,isso incluía todas as cores..

DEIXE UM COMENTÁRIO