HISTÓRIA E VERDADE

“Papai, então me explica para que serve a história”. Este pedido do filho de Marc Bloch abre a introdução de “Apologia da Historia: ou o oficio de historiador”, livro póstumo do medievalista francês, morto pelos nazistas em Junho de 1944. A questão do papel da história até hoje levanta dúvidas entre pessoas de todas as idades, mesmo quando está claro que o fato de ignorar o tempo produziria uma sociedade cega. Mais que isso: pergunta-se o que é a história.

Comentando em um momento de “crise na história”, entre os anos de 1980 e 1990 do século XX, questiona Roger Chartier: “(…) é possível continuar atribuindo a ela [a história] um regime específico de conhecimento? A “verdade” que produz é diferente da que produzem o mito e a literatura”? O falecido historiador norte-americano Hayden White teria respondido: “De um modo geral houve uma relutância em considerar as narrativas históricas como aquilo que elas manifestamente são: ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas tem mais em comum com seus equivalentes na literatura do que com seus correspondentes na ciência”. E Paul Veyne, para fechar, poderia dizer: “é, antes de tudo, um relato e o que se denomina explicação não é mais que a maneira de a narração se organizar em uma trama compreensível”.

Em níveis distintos, os céticos quanto à cientificidade do conhecimento histórico costumam negar a narrativa da história como a transcrição de algo que realmente aconteceu. Seria apenas discurso, símbolos, metáforas e até poesia, manipulações do historiador para fazer o presente conhecer o passado. O grande antropólogo Claude Lévi-Strauss fala em “esquemas fraudulentos” e conclui: “A despeito dos esforços meritórios e indispensáveis para dar vida a um momento da história e para apropriar-se dele, uma história clarividente deveria admitir que ele jamais escapa completamente à natureza do mito”.

Atribui-se a Leopold Von Ranke a paternidade da história cientifica. Representante da historiografia positivista, foi alvo de críticas do movimento dos Annales, que recriou a metodologia histórica a partir de uma “história problema”, em dialogo com vários outros saberes, no entanto, gozando de autoridade cientifica. Aqui se afirma o conhecimento histórico como fruto de uma metodologia, com capacidade universal de investigação. A narrativa histórica se distingue da literatura, pois parte do conhecimento construído pela verificação de hipóteses e conclusões apresentadas em um rigoroso interrogatório das fontes históricas.

Claro, a ciência histórica se difere das ciências naturais e exatas, pois o passado não se coloca pronto, à disposição para ser conhecido. Faz-se necessário a interpretação do historiador, que deve sempre se curvar a verdade na medida em que o método lhe apresente os fatos. O relativismo pós-modernista tenta abolir a verdade, a realidade seria apenas fruto de interpretações particulares, sendo impossível estabelecer o real como absoluto, verdadeiro. Todas as “verdades” são aceitas.

Em tempos de multiculturalismo, onde o universal perde palco para a fragmentação, o objetivo cede à excessiva subjetividade e tudo se submete a relativizações, a defesa do conhecimento histórico como verdade, como produto de uma metodologia rigorosa, se faz necessário.

Nas palavras de Eric Hobsbawn:

O ponto do qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e, para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não o são”(…). “Defendo vigorosamente a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real (…), acredito que sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história”.

A historiografia, então, se apresenta nos nossos dias como uma ferramenta voltada a revelar o passado, mas também significar o presente, e nos fornecer dados para configurar o futuro. Claro, sem voluntarismos, somente trazendo aos homens informações advindas da verdade histórica, alcançada pelo método, desde sempre cientifico, e hoje se reafirmando como o campo da ciência dos homens, especialmente, a ciência dos homens no tempo.

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