ESTRANHAMENTO E FRATERNIDADE

Pensava-se, equivocadamente, anos atrás que o processo de globalização nos levaria a uma sociedade da informação que enfraqueceria a diversidade e geraria uma espécie de uniformidade global. Isso não aconteceu, embora algumas características comuns tenham se espalhado, especialmente onde o condão do mercado tocou e o seu modus vivendi no consumo se consolidou. Com isso, as tendências identitárias se aprofundaram em muitos contextos.

Como resultado, cresceram as reivindicações identitárias étnicas, de gêneros, orientações sexuais, culturais, linguísticas, de nacionalismos imaginários e/ou reais, de crenças religiosas, sociopolíticas, frutos de construções ideológicas como as que dividem sociedades entre figuras irredutivelmente adversárias, como acontece nessa triste hora mundial da casa comum, na quala diplomacia é o terreno da esperança. Esse conjunto tende muitas vezes a enfraquecer o “nós” – que garante a existência do “eu” – que plasmam sociedades e Estados-Nacionais.

Essa miríade identitária, essa crescente demanda por identidades não precisa ser necessariamente negativa, pelo contrário, podemos nos enriquecer com um novo “nós” mais complexo, inclusivo, fraterno, aberto ao diálogo e à empatia, como sempre abraçou Gilberto Freyre (1900-1987). Mas, para isso, é fundamental que não se transforme em identidades o “eu” estranhamente estranhas, como apontou Carlos Fino em Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento (Lisboa: Lisbon Press, 2021), que negam a possibilidade de miscigenação, a influência mútua entre diferentes identidades, diminuindo assim a riqueza dos juntos e misturados, entre etnias, gêneros, religiões e línguas, que desaprovam o pertencimento múltiplo e tendem a favorecer a atribuição a uma identidade repulsiva que se torna proprietária, impondo um pertencimento exclusivo a um único modo de ser e a uma lealdade obrigatória, uma única comunidade e seus dirigentes.

O perigo das identidades enclausurantes, muitas vezes fruto de uma construção ideológica e de tradições inventadas, é o fanatismo, a defesa obsessiva de uma identidade, negando o que consideram diferente e com isso o espírito guerreiro que assumem diante da heterogeneidade, como se vê no Leste Europeu desde a década de 1990.

Se a identidade é entendida então como algo alheio à mudança, como algo estático, invariável, que exige uma forma de convivência exclusiva e excludente, que aceita apenas a reiteração de uma singularidade exacerbada, mais supostamente pura que sua própria história e que é considerada moralmente superior, que abdica da diversidade em nome da diversidade e constrói comunidades sem janelas, nem ar fresco, seu destino inevitável é relacionar-se com os outros por meio do confronto e, muitas vezes, do confronto violento como se vê há décadas, como na dantesca tragédia da Guerra do Kosovo, que agora recebeu uma versão literária pela Ilze Scamparini em Atirem direto no meu coração (Rio de Janeiro: Harper Collins, 2021).

Essa ideia de identidade inepta é incompatível com o sistema democrático, com valores universais compartilhados pela Organização das Nações Unidas (ONU), e torna-se uma mania doentia que ao afirmar tanto suas raízes deixa de lado os frutos e plantas que são essenciais para a convivência humana, interrompendo a caminhada civilizatória.

Mas de toda essa complexa trajetória histórica surge uma poderosa miscigenação, uma fratelli tutti, um valioso movimento sincrético cultural, um “nós” com “eu”, que, por mais que os adeptos de uma identidade obtusa o neguem, está presente no cotidiano. E tudo isso também está presente na história do Brasil, como tem mostrado o embaixador Ronaldo Costa Filho, no Conselho de Segurança da ONU, diante desse conflito entre Rússia e Ucrânia, pois sabe que não é uma história unívoca e sim, como Janus e suas duas faces, nos moldam numa face injusta e conflitiva e outra mestiça e compartilhada. Daí se saber um erro profundo negar um dos rostos, colocar o olhar em uma parte e não no todo, transformar a complexidade em pura briga.

É uma história de 200 anos e mais recentemente contém, ao mesmo tempo, injustiças, conflitos, integrações, vivências comuns, e é nisso que consiste também a nossa miscigenação histórica. Por isso que não podemos andar olhando para trás, por ser uma impossibilidade, tanto quanto refazer o mapa-múndi sem que o mundo exploda. Pessoas e instituições só podem ser apreciadas no contexto histórico pelo qual passaram. Trata-se, mais uma vez, de dialogar, mesmo que sem as melhores condições, para se buscar uma saída na qual todos se encaixem, de concordar em conviver com nossas identidades e pertencimentos, sem deixar de construir um “nós” planetário.

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