CHILE AO VOTO: INCERTEZAS E EXPECTATIVAS

A política democrática globalizou o Chile. Antes que uma intensa transição para o socialismo fosse tentada ou que a extensa deriva neoliberal tivesse ocorrido, a política chilena já havia atraído a atenção internacional e originado uma presunção de otimismo sobre seu destino. Cinquenta anos depois, a política democrática é mais uma vez uma das saídas para uma crise multissistêmica que outros preferem chamar de integral[1]

Desde que a maioria das forças políticas com representação parlamentar concordou com a possibilidade de mudança constitucional, em novembro de 2019, a crise multissistêmica, sem ser desativada, sofreu uma mutação. É muito provável que a pandemia em desenvolvimento tenha exacerbado suas causas mais profundas, tornando visível, com suas consequências mortais de sofrimento, infecções, imobilidade, isolamento, desemprego e empobrecimento, os principais déficits de uma sociedade desigual e segregada, classista e racista. 

A votação no Chile foi de dois dias: 15 e 16 de maio

Uma megaeleição será capaz de desativar uma crise que está até mesmo arrastando o Estado, suspeito de ser autoritário, centralista e marcado por casos de corrupção generalizada? Diante de uma formulação maximalista, a resposta é obviamente negativa. As eleições, independentemente do resultado, não reúnem as condições para modificar tais estruturas regressivas.

Se os resultados, além disso, estiverem desalinhados com o sentimento majoritário de uma população que parece exigir a realização de um Estado de bem-estar socioambiental, participação efetiva e maior grau de descentralização, é muito provável que as eleições de 15 e 16 de maio de 2021 se tornem, paradoxalmente, uma frustração generalizada.

De fato, o Chile hoje está passando por uma inclinação potencialmente revulsiva: a participação eleitoral verificada durante o primeiro dia da megaeleição, permite prever a reprodução de uma direita antirreformista, abrigada em privilégios e capaz de eleger 1/3 dos representantes que integrarão a Convenção Constitucional. Um volume suficiente para, no limite, bloquear um texto constitucional suscetível dar substância a uma versão do Welfare State existente nos países europeus. A oposição, pelo contrário, poderá experimentar um relativo sucesso, mas que no final seria não deixaria de ser um fracasso. Seu divisionismo compulsivo poderia levá-la a obter um voto menor do que seu êxito, particularmente regressivo em prefeitos e constituintes, mas que afetaria menos o centro democrático e muito mais a esquerda radical. 

Desarticulado, defensivo e profundamente desorientado, o progressismo – chamado no Chile de centro-esquerda – está vivendo uma de suas horas mais decepcionantes. Incapaz de articular um programa que equilibre a sustentabilidade com o desenvolvimento, sua identidade parece depender de um social-liberalismo que é tão elitista quanto conformista. Incapaz de adotar um programa de ideias democratizadoras e reformistas, sua existência parece altamente ameaçada pelo surgimento de lideranças populistas.


[1] Carlos Huneeus. “El liderazgo presidencial de Piñera: rigidez y destemplanza al governar”. El Mostrador. https://www.elmostrador.cl/destacado/2021/04/06/el-liderazgo-presidencial-de-pinera-rigidez-y-destemplanza-al-gobernar/ .

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