CHICO E A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS DE PORTUGAL

Tinha eu 15 anos. E, para minha alegria, a TV Bandeirantes exibiu no final daquele ano um especial com Chico, que voltava de um auto-exílio na Europa. No programa, antes de cantar, ele explicava as letras de algumas músicas, entre elas “Fado Tropical”, durante algum tempo proibida no rádio e TV do Brasil.

Chico Buarque em Portugal nos anos 1970

“Fado Tropical” homenageia a Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974, que pôs fim à ditadura de Oliveira Salazar. A letra da música tem um trecho em que diz “esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal”, esperança do compositor de que o Brasil também reconquistasse a democracia.

Já na composição “Tanto Mar”, Chico explicava que mudou a letra diante dos rumos que a Revolução dos Cravos tomou. A letra diz que “já murcharam tua festa, pá, mas certamente esqueceram alguma semente n’algum canto de jardim”. O poeta fazia coro a uma parte da esquerda e da extrema-esquerda que queria levar Portugal a um socialismo de modelo soviético, cubano ou chinês.

Porém, nas primeiras eleições, a de 1975, à Constituinte, a maioria dos portugueses escolheu o Partido Socialista, de tendência social-democrata e de centro-esquerda, que, comandado por Mário Soares, estabeleceu na Constituição de 1976 um Estado democrático parlamentar e de Bem-estar Social, de padrão europeu ocidental.

No exílio, durante a ditadura salazarista, os socialistas portugueses sempre tiveram forte apoio da social-democracia sueca, como também da alemã, cujo líder maior era Willy Brandt, presidente da Internacional Socialista.

Mario Soares, líder do PS português, vence as eleições de 1975

Pessoalmente, simpatizo pelo caminho do PS, que integrou Portugal à Comunidade Europeia, em 1986, hoje União Europeia. Mas, nem por isso, deixo de admirar e curtir o trabalho de Chico Buarque, inclusive de ouvir a sua bela “Tanto Mar”, preferindo eu a letra da primeira versão.

Com aquele programa da TV Bandeirante, de 1978, Chico Buarque despertou em mim o interesse pela Revolução dos Cravos e desde então acompanho, de longe, a evolução da democracia portuguesa.

E sigo o refrão de “Fado Tropical”, na esperança de que o Brasil um dia seja parlamentarista, com um quadro partidário enxuto e representativo, como também alcance os níves de saúde, educação, seguridade e renda dos portugueses.

Naturalmente que a terrinha dos meus antepassados tem lá seus muitos problemas. Mas, por conseguirem organizar suas instituições melhor do que nós, os portugueses estão na nossa frente em vários quesitos importantes. Mas, mesmo sem Cristiano Ronaldo, descendente de cristãos-novos como eu e Chico Buarque, tenho a esperança de que um dia chegaremos lá.

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