ATAQUE DOS CÃES – UM WESTERN SOB NOVA MEDIDA

Ataque dos cães, de início, conta com um movimento da narrativa que chama a atenção do espectador porque instala um pacto solitário de um filho, Peter (Kodi Smit-McPhee), de proteção à mãe, Rose (Kirsten Dunst), sinalizado como um motivo que ganhará força figurativa na história do filme.

Kirsten Dunst, como Rose, em cena de Ataque dos cães

Peter quer cursar medicina; no momento, estuda anatomia em animais (coelhos e bezerros mortos por lobos ou peste) e demonstra coureá-los com eficiência. Mora com a mãe, recém-casada, numa fazenda de gado do padrasto, George, e do irmão deste, Phil (Benedict Caumberbatch).

Phil também é coureiro; tem uma oficina em seu celeiro, bem equipada para seus feitos com o couro de abates do seu rebanho, que ele mesmo curte.

Acontece que Phil nutre compulsivo desprezo pela cunhada, o que ativa, silenciosamente, o pacto do filho de proteção à mãe, à medida que a percebe abalada pelas humilhações que o cunhado lhe impinge. Algo que se acirra quando Rose doa couros curtidos por Phil a um indígena, que vive do artesanato e, no momento, não tem matéria-prima para o seu trabalho. Phil vê em tal atitude da cunhada um gesto de alguém para ele desprezível e com intenções de disputar um lugar de mando na propriedade, algo que consente compartilhar somente com o irmão. Tal situação empurra-o a humilhá-la intensamente.

Assim, tais circunstâncias vividas passam a exigir da narrativa um desenlace diante do que foi pactuado por Peter e dito de início, acerca da sua função como escudo protetor da mãe, ação que ele, sutilmente, passa a desenvolver aos olhos do espectador ao oferecer a Phil couro que ele curtira; no entanto, sabidamente visto como infectado com o vírus do antraz, o que levará Phil à morte por contaminação.

Kodi Smit-McPhee e Benedict Caumberbatch em cena de Ataque dos cães

Pactos, lutas e confrontos, vinganças, são motivos recorrentes em narrativas do western. Ataque dos cães não deixa de utilizá-los; no entanto, de forma compacta, por meio da força figurativa do couro do boi, sem movimentar rebanhos, conflitos entre fazendeiros e ladrões de gado ou de confronto deles com indígenas. O filme, que é de Jane Campion, desenvolve uma narrativa econômica para debater intolerâncias entre comportamentos, modos de viver e de ser, num belo cenário de pastagens com as montanhas de Montana circundadas por pequenas estradas, bem cuidadas para o tráfego dos automóveis do início dos anos do século XX. A paisagem encontra-se também sob nova medida: não sustenta um espaço de proteção, confronto ou fuga, mas de clareza.

O cinema conta com modos de produção e recepção que lhe permitem, meticulosamente, calcular, harmonizar, dar volume a valores, sentimentos, emoções que impactam o espectador no curso de hora e meia. Cálculo e harmonia são medidas de beleza das artes, tratamento dado por Jane Campion aos significados associados ao couro e distribuídos, sob medida, para traduzirem o confronto silencioso entre Phil e Peter; o primeiro, como um paciente artesão e rude criatura; o segundo, como um indivíduo frágil, mas uma couraça, um escudo protetor da mãe.

(Publicado originalmente em Política Democrática Online, n. 40; https://www.fundacaoastrojildo.org.br/ataque-dos-caes-2021-e-western-sob-nova-medida-avalia-luiz-gonzaga-marchezan/)

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