AS VELAS DE SÃO PAULO

Muito mais do que algo que se movimenta de modo organizado, a História é frequentemente acometida por sobressaltos e assincronias. Ou por equilíbrios entre mudanças e permanências em ambientes complexos, cujos agentes se movimentam a partir de inúmeros interesses e possibilidades. Mais amplos do que a racionalidade instrumental dos liberais ou do que a consciência de classe ainda ingenuamente desejada pelos socialistas e por suas parcerias mais próximas podem imaginar.

Por isso, tanto os agentes quanto o curso da História não são totalmente previsíveis. O que significa dizer que a próxima crise não será prevista com tanta precisão como muitos imaginam; e muito menos será igual às que já passaram.  Será sempre diferente e demandará novas ideias e adaptações.

Contudo, isso não significa que a História não deva ser minuciosamente revisitada em seus objetos e abordagens se quisermos enfrentar melhor a próxima crise. Mesmo que a História não se repita, entendê-la pode nos dar parâmetros mais seguros para identificarmos nossas forças e fraquezas no enfrentamento de crises do passado, assim como quais são as âncoras e velas que carregamos até aqui.

Mapa do Estado de São Paulo e ao fundo imagem da capital do Estado

Neste sentido, não será nenhuma novidade se, aleatoriamente, indagarmos as pessoas sobre os itens que serviram de âncora ao desenvolvimento de uma determinada sociedade e a resposta for corrupção, violência e ignorância. Assim como se perguntarmos sobre quais as velas do desenvolvimento: a resposta não surpreenderá se for educação, infraestrutura e capacidade de resposta e adaptação às mudanças.  Ou seja, mesmo sabendo que a próxima crise não será igual à que ocorreu no passado, nós sabemos identificar quais os elementos que, na crise pretérita, ajudaram ou atrapalharam a sociedade. E sociedades cuja infraestrutura, educação e adaptabilidade eram maiores e melhores responderam com mais eficiência às crises que já enfrentaram se comparadas às menos apegadas a estes itens. Assim como sociedades corruptas, ignorantes e violentas mostraram no passado o preço de seu apego a estes itens quando confrontadas por crises que, até então, não esperavam.

Assim, possivelmente, será em todas as crises que virão – e elas virão – no futuro. Sociedades cujas velas são a infraestrutura, educação, capacidade de inovação tecnológica e adaptação ao imprevisível, serão, com maior probabilidade, mais eficientes nas respostas às crises que enfrentarão.   Portanto, parece que o desenvolvimento destes itens é ou deveria ser a principal agenda de qualquer liderança pública que queira preparar a sociedade para as crises imprevisíveis que enfrentaremos no futuro. E, analogamente, aqueles que fizeram isso no passado enfrentam melhor a imensa crise presente.

Contudo, mesmo parecendo óbvio, não é assim que nos últimos momentos olhamos para nossa História. E este é o risco de não identificarmos o que importa em nosso passado.  Em outros termos, não estamos acostumados a procurar em nossa História os determinantes do desenvolvimento; e sim do subdesenvolvimento. Por exemplo, estamos mais preocupados em saber sobre os motivos da desigualdade persistente do que sobre as causas que fizeram de Santa Catarina o estado menos desigual do país. Parece que a facilidade de entendermos que ambos estão relacionados e são complementares nos cega em relação às nuances e aos desvios que cometemos quando, por motivos tão variados quanto nossos vieses e preferências ideológicas, desequilibramos nossa atenção em benefício do primeiro. E, portanto, em prejuízo do entendimento sobre os motivos da relativamente baixa desigualdade no bonito estado sulista.

Instituto Butantan

Objetivamente, não estamos olhando, com o cuidado necessário, às causas históricas que fizeram com que São Paulo respondesse melhor aos desafios do passado e, sem nenhuma surpresa, continuar respondendo à crise atual. No passado já fomos mais cuidadosos, mas há tempos que criamos um tabu que nos faz olhar para isso com menos zelo. Em seu lugar, destacamos os problemas que nos ajudam não a entender a História, mas a contá-la à nossa tribo, nos esforçando para adaptar os fatos às nossas idiossincráticas abordagens e narrativas.

É hora, então, de mais do que entender os motivos que nos atrasam, identificar e, principalmente, anunciar, que estão em São Paulo o Instituto Butantã, a USP, a UNICAMP, a UNESP, as melhores rodovias do país e o maior número de patentes registradas.  Também que isso não se construiu de um dia para o outro e que, se foram importantes para o enfrentamento de crises do passado, serão fundamentais para o enfrentamento das crises do futuro. Portanto, não me parece que reclamando, criando narrativas historicamente duvidosas ou maldizendo São Paulo por toda sua estrutura, nos ajudará a enfrentar a atual e as próximas crises. Em seu lugar, é hora de projetar e trabalhar para que estes resultados transbordem para todas as regiões do país.  A próxima crise está na esquina e o agravamento da atual em nossa janela.  E elas não se importam com as platitudes dos liberais ou com os vieses socialistas. Mas temem, por outro lado, a ciência, a educação, a tecnologia, a inovação e a infraestrutura.

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