A VERDADEIRA TOLICE

Há algo de bizarro em parte da intelectualidade da esquerda brasileira. O sociólogo carioca Emir Sader, conhecido por sua persistente bajulação a Lula, certa vez se prestou em “teorizar” os governos do petista. Falou-se em “pós-neoliberalismo”, com a construção imaginária de uma era neoliberal na nossa história, promovida basicamente pelos governos tucanos na administração central do país. A “teorização” tinha até lugar a ser realizada, na Casa de Rui Barbosa, onde Sader foi indicado para dirigir. A coisa só não foi para frente pois o sociólogo resolveu chamar a então ministra da cultura, Ana de Hollanda, de “autista”, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo. Saiu antes mesmo de entrar.

Jessé de Souza (1960)

A filósofa uspiana Marilena Chauí é bem mais performática que seu colega de lulismo. Ao invés de teorização acadêmica, ela optou por uma exposição bem mais direta e teatral, traduzida em um vídeo onde ela demoniza a classe média, reduzida aos termos de abominação ética e cognitiva. Já no campo mais extremo, há um teórico que propõe dar nome à esquerda, uma esquerda que deveria superar a democracia representativa, fazer valer a justiça por meros assembleísmos, dispensando a mediação institucional. Essa é a tese política principal defendida por outro uspiano: o também filósofo Vladimir Safatle.

No entanto, no meio dessa intelectualidade “fora do lugar” se destaca alguém que conseguiu, com argumentações simplistas e grosseiras, alcançar pela via editorial um enorme número de pessoas, fazendo valer narrativas rasas e tendenciosas sobre os episódios recentes da política nacional. Falo do sociólogo Jessé Souza, autor de A Elite do Atraso, livro que virou bíblia nas mãos daqueles que procuravam desesperadamente culpados pela situação moralmente desastrosa do Brasil, com vistas a absolver o PT dos seus erros. Jessé, então, apresenta suas fórmulas históricas e sociológicas dignas de risadas até mesmo entre seus pares no lulismo.

Jessé tem um livro chamado A tolice da inteligência brasileira. O autor, a partir dele, desenvolve uma crítica insistente ao modelo culturalista adotado na interpretação do Brasil por vários autores. Para ele, escritores consagrados como Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro construíram um discurso “racista” (vejam só!) de que é o povo brasileiro, herdeiro da colonização ibérica, o grande responsável por nossos problemas, sendo a transferência cultural da colonização, algo próxima da transição biológica da raça. Assim, ele fala, de forma bizarra, de um “racismo racial” e um “racismo cultural”. O Brasil, ainda segundo Jessé, sofreria racismo por conta da consagração de uma narrativa intelectual, pela esquerda e pela direita, que nos faria “raça inferior” a outras realidades históricas, como a dos EUA, onde prevaleceu a cultura ascética do protestantismo. Nós teríamos ficado com a “cordialidade” das relações íntimas, firmadas no Estado Patrimonial.

Raymundo Faoro (1925-2003)

Jessé estende seus conceitos de forma repetitiva em vários livros. Ele propõe uma versão alternativa aos clássicos, estabelecendo a escravidão como núcleo interpretativo central da realidade brasileira. Os paradigmas da escravidão de outros tempos teriam ganhado versão moderna no Brasil atual. Claro que os séculos do cativeiro influenciaram dramaticamente em nossa estrutura social, mas o que o sociólogo pretende é fundamentar sua narrativa em torno de uma visão que quase anula, por exemplo, a problemática da corrupção, apostando na discussão das classes sociais como fator determinante e justificador de aspectos arcaicos que permeiam a moralidade pública brasileira. Tal narrativa, claro, cai como uma luva para os interesses do partido hegemônico da esquerda brasileira, o Partido dos Trabalhadores, então no núcleo de um mega-esquema de corrupção que aparelhou o Estado brasileiro.

O sociólogo está lançando novo livro, chamado a A herança do golpe. Na verdade, trata-se de uma requentada de um outro trabalho seu A radiografia do golpe, que trata do impeachment da presidente Dilma. Neste “novo” livro, Jessé busca estabelecer um novo e delirante vínculo. O impeachment de Dilma, sempre tratado como “o golpe de 2016” teria sido o fator determinante para o sucesso de Bolsonaro e seus ideais bárbaros. Usando a ladainha de sempre, ele manipula discursos panfletários, e de forma maniqueísta estabelece inimigos e culpados, sempre devidamente rotulados para fins argumentativos. Ele foca no “ovo da serpente”, que teria sido as jornadas de junho de 2013. Na grosseira simplificação do autor, tudo não passou de manipulação midiática, uma artimanha classista e pensada da Rede Globo, a fim de perseguir governos populares. Os milhões de brasileiros que saíram às ruas naquele ano perdem o status de cidadãos com desejos e impressões próprias do mundo a seu redor, para se tornarem vaquinhas seguidoras das manobras dos seus donos. 

Jessé interpreta a corrupção não como uma doença social e cultural a ser combatida, mas sim como um fenômeno inevitável e até necessário quando o assunto é promover mobilidade social. O autor chega a tratar o mensalão (compra de votos parlamentares nos governos petistas) não como um escândalo ético que contamina o funcionamento impessoal da máquina pública, mas sim como um artificio mais barato usado pelas forças progressistas a fim de conseguirem driblar a prevalência conservadora do Congresso nacional.

Dilma Rousseff na sessão de impeachment no Senado da República

No esquemático e simplório pensamento de Jessé, tudo o que se sabe sobre a sujeira promovida pelo PT no poder não passa de reação elitista aos propósitos inclusivos do partido no governo. A Operação Lava Jato, peça de compreensão complexa na história nacional, se converte apenas em um mecanismo político de aliança entre elites econômicas, o aparato jurídico/policial e a grande mídia contra a tentativa inédita de administrações populares em combater as desigualdades. Há, claramente, a tentativa de higienizar máculas morais da esquerda no poder, e dar verniz justificador a ações condenáveis no quadro de uma república democrática.

Jessé chega a se vangloriar de ser o primeiro grande interprete do Brasil contemporâneo a descobrir a escravidão como eixo formador da nossa realidade atual. Vaidade pessoal ridícula, de quem escreve de forma pobre, com agressões gratuitas, delírios e até má intenção com a história. Seu lugar hoje é de ideólogo de uma seita fanática que gira em torno do lulismo, com ambições de fazer de teses toscas, elemento de fortalecimento de um projeto de poder com partido político oficial.

O impeachment de Dilma em 2016 não foi golpe. Ele partiu de um fato jurídico (crime de pedalada fiscal) e se desenrolou em meio ao esgotamento da governabilidade da presidente, golpeada ainda mais com as legítimas pressões de rua, abastecidas não com manipulação da rede Globo, mas por números reais que testemunhavam a quebradeira econômica do país. O processo foi todo observado pela Suprema Corte e Dilma teve até a chance de ser candidata novamente, com seus direitos políticos inacreditavelmente mantidos. Ela tentou o Senado federal e perdeu, rejeitada pelo voto popular.

Mesmo assim, não faltaram pesquisadores que se propuseram a teorizar um golpe que não existiu, com direito a cursos especiais nas universidades públicas. Nada, no entanto, parece mais ridículo do que os esforços de Jessé Souza em recriar uma nova história contemporânea do Brasil, onde os fatos sejam substituídos por conceitos delirantes e manipulações descaradas. Jessé, definitivamente, representa a verdadeira tolice da inteligência brasileira.

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