A HISTÓRIA DO PAÍS INVADIDO POR PUTIN

Rússia e Ucrânia estão em guerra. Antes de invadir o território ucraniano, violar leis internacionais, atacar civis, matar crianças e usar armas proibidas em convenções, Putin declarou que a Ucrânia sequer teria direito a ser uma nação. Seria parte da Rússia, que só se assanhou por uma infeliz decisão do revolucionário bolchevique Vladimir Lênin. O autocrata e ex-agente da KGB reproduz a tese do nacionalista russo do século XIX, Vissarion Belinsky, que tratava a Ucrânia como “Pequena Rússia”. Afirmou ele: “a história da Pequena Rússia é como um afluente entrando no rio principal da História Russa (…). Os Pequenos Russos sempre foram uma tribo, jamais um povo – e menos ainda um Estado”.

Kiev, capital da Ucrânia

No entanto, a versão russa só se sustenta dentro de um bizarro nacionalismo russófilo. A história ucraniana pode ser contada já a partir do século IX, no Estado medieval da Rus Kievana, formado por eslavos e uma nobreza viking. Para os ucranianos, ali estão seus ancestrais. No final da Idade Média, certa “ucraneidade” se desenvolve a partir de uma língua própria, costumes, lendas, mitos, heróis, vilões e culinária. O nacionalismo ucraniano, acompanhando outros povos europeus, tais como italianos e alemães, ganha força e significado entre os séculos XVIII e XIX.

Historicamente, o nacionalismo ucraniano foi interpretado como uma ameaça, como no caso do Império russo, que atacou a língua e a cultura ucraniana. A jornalista americana Anne Aplebaum, especialista em Rússia, escreve: “O idioma ucraniano foi o primeiro alvo. Durante a grande reforma educacional no Império russo, em 1804, o zar Alexandre I, permitiu que algumas línguas não russas fossem usadas em novas escolas estatais, mas não o ucraniano”. A língua ucraniana era menosprezada e tratada como “dialeto”.

O nacionalismo ucraniano ganhou espaço e propagação a partir da ação de intelectuais. Muitos deles desapareceram fisicamente, assassinados. Um deles foi o historiador, Mykhailo Hruschevsky, fundador do Partido Nacional Democrático Ucraniano, que era saudado com os gritos de “Glória ao Pai Hruschevsky”. Em 1918 a Ucrânia declararia sua independência, seguida por guerra civil. Mas antes, em 1917, iniciaria para a Ucrânia um percurso histórico de grande horror e tragédia não só para o seu povo, e sim para o mundo todo.

Memorial do Holodomor

O advogado judeu Raphael Lemkin é o criador do termo “genocídio”. Seu conceito se referia ao extermínio não só de pessoas, mas da nação, da etnia, de culturas inteiras. Lemkin viu no Holodomor o maior exemplo de seu termo. Apesar disso, muitos tribunais internacionais ainda se recusam a dar o status de “genocídio” ao terror cometido contra os ucranianos por parte do regime que começou a se construir no referido ano de 1917, quando os bolcheviques deram um golpe de Estado na Rússia e assumiram o poder em 1917.

O Holodomor foi um dos capítulos mais tenebrosos da história mundial. O ditador soviético Joseph Stálin é o grande responsável pela morte de cerca de 3,3 milhões de ucranianos pela fome. O regime stalinista é o desdobramento de uma “revolução” construída sobre saques, sequestros, assassinatos e trabalho forçado. O roubo de grãos, o estabelecimento de metas inalcançáveis para os camponeses, o impedimento de ucranianos fugirem atrás de comida deram o tom a esse horripilante momento da história ucraniana. O bolchevismo foi buscar em Karl Marx, o teórico do “socialismo científico”, o desprezo pelo campo nos seus planos revolucionários. O filósofo alemão via nos camponeses uma força morta na revolução, e mais tarde Lênin atualizou a teoria colocando o campo como subordinado ao proletariado revolucionário. O bolchevismo deu interpretação radical nesta narrativa e perseguiu covardemente os chamados kulaks (camponeses prósperos).

A guerra que vivemos hoje trouxe acusações mentirosas e distorcidas por parte dos putinistas, de direita e de esquerda. Em uma delas, acusa-se a Ucrânia de apoiar neonazistas. Ora, o presidente Zelensky é judeu e tem parentesco com vítimas do holocausto, só isso bastaria para afastar tamanho absurdo. Mas os defensores da agressão se superam e distorcem a história apontando o dedo para os batalhões nazistas presentes na Ucrânia, além de reclamarem da colaboração de ucranianos com o nazismo durante a II guerra mundial, assim como a elevação de Stepan Bandera como herói nacional(*).

Soldados ucranianos e população urbana a espera da invasão

Na Ucrânia são proibidos partidos comunistas. Nenhum democrata concorda com esse tipo de limitação da democracia. No entanto, compreende-se o desprezo ucraniano pelo comunismo que no período bolchevique oprimiu de forma impiedosa o povo. Também se compreende a positiva recepção de muitos ucranianos ao nazismo. Via-se nele a possibilidade de libertação nacional. Stepan Bandera, que tem suas fotos exposta em várias manifestações neonazistas, era alguém que queria uma nação ucraniana. Contra as mentiras putinistas, a Ucrânia é um país que nega representação parlamentar à extrema-direita e que soma milhões de mortos na luta anti-Hitler.

Durante a existência da União Soviética, a Ucrânia fez parte de seu território, mas logo depois da queda do “comunismo histórico”, tornou-se uma nação independente com reconhecimento internacional. Putin, movido pela nostalgia de restauração da “Grande Rússia”, invadiu um país independente que não deve a ninguém suas decisões sobre seu futuro. A agressão militar por parte Rússia é injustificável e a história joga a favor da Ucrânia.

(*) “Stepan Bandera foi uma figura bastante controversa politicamente, mas é inequívoco tratar-se de um nacionalista que pretendia a independência da Ucrânia. Apoiou os nazistas com esse objetivo. Foi preso pelos nazistas em um campo de concentração, junto com outros líderes europeus. Os nazistas não aceitaram sua pretensão de independência da Ucrânia. Após a guerra, foi morar em Munique, onde foi envenenado em 1959, como provado nos tribunais alemães, por um agente da KGB, a mando direito de Kruschev, também ucraniano, mas que não aceitava a independência da Ucrânia. Quando da invasão da Finlândia pela Rússia, os finlandeses inventaram o coquetel molotov, porque o chanceler soviético que qualificou o “coquetel” dizia que a URSS não estava jogando bombas na Finlândia, mas cestas de pão. Hoje, na Ucrânia, o equivalente ao coquetel molotov é chamado de Smoothie Bandera” (Uma nota de Everardo Maciel, a quem agradecemos).

REFERÊNCIAS:

APPLEBAUM, Anne. A Fome vermelha: A guerra de Stalin na Ucrânia. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2019.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: O breve século XX-1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

PIPES, Richard. História concisa da revolução russa. Rio de Janeiro: Bestbolso, 1995.

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