A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER

Certamente o deputado Arthur do Val não leu a obra seminal, cujo título tomamos emprestado para este artigo, da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura de 2015. A autora apresenta uma história pouco conhecida: a presença da mulher nos campos de batalha da II Guerra Mundial, pilotando tanques, aviões, baterias antiaéreas e ainda como médicas e enfermeiras.

Svetlana Aleksiévitch

A história das guerras sempre foi contada sob o ponto de vista masculino, apesar da presença da mulher no front ter sido constada desde o conflito entre Atenas e Esparta ou nas campanhas de Alexandre, o Grande. A importante contribuição do livro de Svetlana é dar visibilidade a essa participação por meio de depoimentos de soldadas soviéticas que lutaram com coragem e bravura. Apesar de seu papel, não estiveram livres do assédio sexual. A figura de “esposas de guerra” proliferou no comando das tropas do Exército Vermelho.

As guerras afetam o universo feminino de diversas maneiras. As mulheres arcam com o fardo pesado de substituir a mão de obra masculina deslocada pela guerra, inclusive na produção bélica, assumindo a responsabilidade pela sobrevivência de seu país, dos seus filhos e de suas famílias.

Sofrem violências sexuais quando seu país é invadido, ou mesmo quando engrossam os imensos contingentes de refugiados. As mulheres foram vítimas das maiores atrocidades e perversidades sexuais quando a Rússia foi invadida. Ao final da guerra, foi a vez dos soldados soviéticos fazerem o mesmo quando adentraram na Alemanha, praticando estupro em massa, não poupando sequer as mulheres idosas.

Mulheres francesas que entregaram seu corpo aos alemães foram tratadas como “colaboracionistas” e submetidas à humilhação pública, tendo as cabeças raspadas. Não é diferente nas guerras étnicas ou religiosas da África ou da Ásia. Nos campos de refugiados, mulheres e crianças são estupradas ou permitem que seus corpos sejam usados para poder sobreviver – este sempre foi um desafio diário.

Mulher e combatente russa na Segunda Guerra

Mesmo no Haiti, as tropas da ONU foram acusadas de abusos sexuais e estupros de mulheres, meninas e meninos, como observou o jornalista Jamil Chade em sua pungente carta aberta ao deputado Arthur do Val intitulada “A condição feminina na guerra e na paz”. Jamil foi correspondente em campos de refugiados em três continentes, sendo testemunha viva do martírio e calvário das fugitivas da guerra.

Relembrar esses fatos se torna extremamente atual diante do drama das mulheres ucranianas, obrigadas a fugir do seu país invadido pela Rússia. As guerras podem anular os freios morais, liberando os piores instintos do ser humano.  

Mamãe Falei, codinome debochado do deputado Arthur do Val, vociferou o pior de si ao não ter a menor empatia com as mulheres, sejam ucranianas ou não. Sua fala não é apenas sexista e misógina. É desumana e reveladora de uma mente distorcida, de valores morais corrompidos, que envergonha a nós, brasileiros.

Não, o parlamentar não foi até a fronteira da Ucrânia para comungar da dor dos refugiados – um mar de dois milhões de mulheres e idosos que deixaram tudo para trás e fugiram da guerra para sobreviver. Certamente seu objetivo era gravar cenas para sua campanha a governador de São Paulo. Se seu áudio não tivesse sido vazado e provocado tamanha indignação, em agosto ele estaria na campanha televisiva eleitoral, posando de defensor da ética na política e de solidário à diáspora ucraniana.

Refugiadas ucranianas

A genial música “Você não passa de um falso moralista”, de Nelson Sargento, diz muito sobre uma constelação de governantes e parlamentares que se elegeram surfando na onda da anticorrupção. São os filhos legítimos da antipolítica que emergiu no país a partir de 2016. A corrupção dos valores é tão grave quanto a apropriação da coisa pública e o enriquecimento ilícito. Inadmissível um parlamentar criticar a Alemanha por ter criminalizado o nazismo após a segunda-guerra ou disseminar notícias falsas que põem em risco a vida dos brasileiros.

Um dos fenômenos perversos dessa onda é a banalização do politicamente incorreto. Políticos, a começar pelo presidente, cometem as maiores ofensas, dizem mentiras e absurdos, sem que haja uma reação à altura da gravidade de suas palavras. A contemporização, o apaziguamento, com intenções e gestos que afrontam valores humanos estimulam a escalada da insensatez.

Imaginem como deve ter sido o Dia Internacional da Mulher para as ucranianas, muitas fugindo de seu país invadido, com seus lares destruídos, seus maridos ou pais e irmãos no campo de batalha, dependendo da ajuda humanitária. Outras assumindo posições no front ou nos cuidados às vítimas dos ataques russos. 

A elas, nossa absoluta solidariedade. Como escreveu Svetlana, a guerra não tem rosto de mulher.

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