A GUERRA CHEGA AO PONTO MORTO

Para seus promotores, as guerras costumam ser apresentadas como causas coletivas. Seu poder destrutivo e legado traumático é minimizado em favor da mobilização nacional que alegam promover. Invocar a guerra como se fosse um atalho decisivo e uma demonstração de vontade seduziu dirigentes e governos. Enquanto alimentava a conflagração no Vietnã, Lyndon Johnson desafiou os EUA com sua “guerra contra a pobreza”. Sem muito empenho, Felipe Calderón, há mais de uma década, promoveu uma “guerra contra o crime organizado” e Xi Jinping, mais recentemente, uma “guerra contra o luxo”.

Imagem de soldado ucraniano expressa a guerra convencional no seu início

Contudo, apelar para a guerra como se por um momento pudéssemos equalizar toda a violência que emana e sua malignidade pudesse ser isolada como um patógeno segregável é altamente controverso. Mesmo quando se quer relativizá-la sob a figura de uma “operação militar especial”, desencadear uma guerra é patrocinar a ocorrência de danos em grande escala. A calamidade é agravada pelo fato de que nem mesmo as tropas mais instruídas nos protocolos de confronto podem observar as regras em combate.

O abuso e a violação dos Direitos Humanos estão no centro do depoimento de Luis Lagos. Voluntário chileno nas fileiras ucranianas, Lagos demonstrou sua consternação com as atrocidades cometidas pelo exército invasor contra, principalmente, civis desarmados. Registros pungentes são abundantes. Antes do fotojornalista Mstyslav Chernov escapar de Mariupol, um estudo geolocalizado do CNN confirmou a autenticidade de suas imagens. Entre os mais chocantes estão aquelas que explicam um ataque por controle remoto contra um hospital materno-infantil que estava cuidando de pacientes no dia do bombardeio.

As ações diversionistas sobre a autoria do ataque ao centro de saúde em Mariupol deram uma nova ocasião para Joe Biden levantar a munição verbal e acusar seu equivalente em Moscou de ser um “criminoso de guerra”. Embora a derrota moral e comunicativa de uma invasão há muito programada tenha ganhado mais um tijolo, o estupor mundial não é um consolo efetivo para os sobreviventes aterrorizados pelo arsenal russo, nem para suas famílias exiladas.

Cena dramática de socorro a uma paciente logo depois do bombardeio ao hospital em Mariupol

Há evidências suficientes para supor um prolongamento devastador do conflito na república independente da Ucrânia mesmo que não se recorra ao uso unilateral de armas nucleares. Como as forças de defesa estão impondo pesadas perdas aos atacantes, é muito provável que as salvas de mísseis e/ou o uso indiscriminado de artilharia convencional contra áreas povoadas aumentem ainda mais.

O cerco pode até envolver, caso ainda não tenha ocorrido, o uso de armas proibidas, principalmente químicas e/ou bacteriológicas. Ontem se falou do uso ofensivo de engenhos explosivos contendo fósforo. Evidências foram fornecidas anteriormente de que a aeronave atacante havia usado bombas de fragmentação. O Chile, infelizmente, sabe muito sobre eles.

A beligerância que ocorre em território ucraniano, dizem, alcançou um ponto morto. Concordar ou discordar com esse diagnóstico não deve excluir uma questão-chave: se a guerra está em ponto morto, o que estamos fazendo para bloqueá-la em todos os momentos e em todos os lugares?

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