A GRÉCIA É AQUI, A GRÉCIA NÃO É AQUI

No final de agosto de 2021, depois de dois anos finalizado e, portanto, filmado num contexto anterior à pandemia de COVID-19, entra em cartaz nos cinemas brasileiros o filme Adults in the Room (2019) do cineasta Costa-Gavras. No Brasil, o título é “O jogo do poder”, o que, de certa forma, reduz as arenas de discussões políticas e econômicas a simples debates rígidos nos quais tendem a levar vantagem quem está no poder. No entanto, o filme do cineasta grego, naturalizado francês, é muito mais do que um jogo de poder, se quisermos pensar a política contemporânea com mais profundidade.

Konstantinos (Costa)-Gravas (1933)

A trama que nos oferece Costa-Gravras parte da adaptação, feita pelo cineasta, do livro Adults in the Room: My Battle With Europe’s Deep Establishment de Yanis Varoufaki, de 2017, que até o momento não ganhou uma tradução no Brasil. Yanis Varoufaki foi eleito para o Parlamento grego, em janeiro de 2015, alcançando mais do de 142 mil votos, a maior votação de um parlamentar representando o Syriza (s ɪ r ɪ z ə, em grego ΣΥΡΙΖΑ). Syriza – um trocadilho com o advérbio grego σύρριζα que significa “das raízes” ou “radicalmente” – é um partido fundado em 2004 como uma coalizão de partidos de esquerda, incluindo a esquerda radical.

O filme começa com os membros do Syriza, entre eles Varoufaki e presidente do partido, Alexis Tsipras, acompanhando os resultados eleitorais do início de 2015. Tais resultados alçariam Tsipras ao posto de Primeiro Ministro da Grécia e Varoufaki, dois dias depois de o Syriza conseguir a maioria das cadeiras do parlamento, assume o cargo de ministro da fazenda do País, pasta que ocupou de janeiro a julho daquele ano.

Em seu livro, Varoufaki nos revela aqueles meses que esteve como um insider na vida pública. Dias de intensas negociações das dívidas gregas com a chamada “Troica”, formada pela União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. As tensões políticas das reuniões que se seguiram, após Varoufaki assumir a condução para as referidas negociações, são eventos que nos remetem ao relato de John Maynard Keynes, em seu The Economic Consequences of the Peace. Este livro, escrita e publicado em 1919, documenta a participação do pensador inglês na Conferência de Paz de Paris (1919), como representante do Tesouro britânico, com o qual Keynes irá romper por discordar dos acordos que levariam a Alemanha a pagar uma dívida impossível, imposta em razão dos gastos referentes a Primeira Guerra Mundial[1]. Os atores de 1919 reaparecem assim, em outro contexto, nas reuniões das delegações europeias com a Troica.  Em 1919, França e Inglaterra indicavam claramente a defesa dos interesses políticos de suas respectivas nações, em detrimento da América, em especial da representação dos EUA. Em 2015, a Alemanha, unificada e representada por Wolfgang Schauble, também se revelará irredutível em seus interesses.

Yanis Varoufaki (1961)

Costa-Gravas nos revela o drama grego utilizando-se da metalinguagem. Ele mobiliza a clássica música de “Zorba, o grego”, um filme greco–estadunidense de 1964, baseado no romance homônimo de Nikos Kazantzakis, dirigido por Michael Cacoyannis, cujo o personagem-título foi interpretado por Anthony Quinn — que não era grego, mas mexicano. O filme tornou conhecida a Sirtaki, a dança por linhas retas ou ciclos dos bailarinos, de mãos dadas com os ombros adjacentes. A dança começa lenta, com movimentos suaves que gradualmente tornam-se mais rápidos, alegres e, muitas vezes, incluindo pequenos saltos. É uma mistura de ritmos lentos e rápidos da dança folclórica grega hasapiko. A dança e a música (por Míkis Theodorakis) é também chamada de “Zorba’s dance“. Um prelúdio de que os esforços de Varoufaki seriam vãos diante do embate político desse mundo globalizado, mas amarrado por interesses mal compreendidos.

O filme evidencia a alegria e a esperança da população na aposta que fez em dar uma chance política para a frente representada pelo Syriza. Contudo, as condutas e tendências populistas dos governos acabam por contaminar aquela janela de oportunidade. Daí Costa-Gravas se utilizar brilhantemente, nas cenas tensas, do recurso ao coro do teatro grego, notável no momento em que Varoufaki está prestes a pedir sua demissão. Aqui e também na última reunião que ele participa com a “Troica”, pesam sobre aqueles 142 mil votos que recebeu nas eleições que o alçaram ao Parlamento e ao governo.

Os embates de Varoufaki com a Troia nos mostram como o livre mercado não existe e que a hegemonia é de um capital sem Pátria nem Nação, que defende políticas fiscais que invariavelmente levam ao desemprego, à carestia e à crise social, seja na Grécia ou em qualquer país que obstaculize seu curso.

Cena do filme “O Jogo do Poder”

Ver o filme nesse contexto aziago que o Brasil vive nos enche de maus presságios só de imaginarmos o que temos pela frente. Ainda há tempo para nos prepararmos para a reconstrução de nosso país. Para que possamos superar a crise política, econômica e social que se agrava a cada passo, submetidos a esse desgoverno. Temos que nos preparar, pois, as tensões políticas internacionais para retornarmos aos trilhos irão surgir mais à frente como foi no caso grego.

Na Grécia, o povo continua aguardando uma nova alternativa para superarem uma crise que parece infinita. Nós ainda temos a oportunidade de resgatar nossa “dialética sem síntese” que sempre nos uniu, buscarmos um novo equilíbrio para nossos antagonismos e seguirmos em frente, pois, como nos apontou Ulrich Beck, estamos vivendo a “metamorfose do mundo” e temos que criar novos conceitos para uma nova realidade.


[1] O livro de Keynes teve uma interpretação singular na América do Sul elaborada pelo pensador peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930); sobre isso ver SILVA, Renata Bastos. Lord Keynes pelo Amauta Mariátegui: A crítica da Economia de Keynes na Política de Mariátegui. Jundiaí: PACO Editorial, 2019.

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