A DEMOCRACIA ACOSSADA POR FANÁTICOS

No dia em o comandante do Exército ignorou a um só tempo o Regulamento Disciplinar do Exército e o Estatuto das Forças Armadas, deixando sem punição um General que participou de ato político de nítida inclinação golpista, o ministro da Educação anuncia que pretende ter acesso antecipado às provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). O seu objetivo é fiscalizar o possível conteúdo ideológico da prova, evitando questões consideradas inúteis, como as relativas aos temas comportamentais e de gênero, conforme reportagem de Ana Paula Bimbati e Gilvan Marques no site UOL[1].

General Pazuello, ex- Ministro da Saúde, em Manifestação com Bolsonaro no Rio de Janeiro

Em que pese a tentativa de subversão das Forças Armadas, em especial do Exército, o fato é que o bolsonarismo anima a sociedade a partir de civis, de gente que germinou sob a democracia e ousa afrontá-la num golpe de oportunidade. O ridículo de sua simbologia já não faz graça, pois é impossível rir do horror. Os seus lemas e as suas práticas de perseguição às minorias encontram eco em quem tem uma compreensão distorcida da realidade. E esta tem sido pacientemente explorada por manipuladores de todo o tipo, travestidos de homens de negócios, evangelizadores, comunicadores, palestrantes motivacionais. Sob o manejo destes ilusionistas, pessoas comuns convertem-se em membros de uma horda para a qual a ignorância é potência. Seu único lema é a meritocracia contra a preguiça e o vício dos degenerados de esquerda. E chegamos ao momento presente.

Enquanto os brasileiros padecem, fanáticos destilam ódio e recuperam a fraseologia e a estética fascista. Não bastasse, malucos investem contra a democracia e suas instituições estimulados pelo liberticida de plantão. E caminhamos para o abismo crendo não haver distinção entre sanidade e loucura. O espetáculo de afronta à ciência que nos é dado por senadores governistas nas sessões da CPI da Covid, somado às lives do presidente, demonstram que, entre nós, apenas o mortos parecem estar a salvo, contrariando a tese 6 de Walter Benjamin sobre o conceito de história, segundo a qual nem estes estariam em paz com a vitória do adversário[2] (Benjamin, 1985).

Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, de 1995, denunciava o que o desprezo pela ciência poderia fazer de uma Nação. Sobre os Estados Unidos, ele considerava evidente o “emburrecimento” médio, visível no crescimento da superstição e do fetichismo em um mundo que, paradoxalmente, caminha para a dependência cada vez maior da ciência e da tecnologia, como a civilização global deste século XXI. Seu temor era o que isso poderia causar. A ciência é um corpo de conhecimentos, mas também é um modo de pensar. Desprovidos dessa habilidade de julgar, os seres humanos aceitam qualquer discurso de autoridade e se tornam vítimas fáceis de delírios políticos ou religiosos. Tornam-se fanáticos.

Moradores de rua buscam alimento mas não se protegem contra o virus

Thomas Ady, cujo livro Candle in the dark, de 1656, é discutido por Carl Sagan, merece ser lido em nossos dias. O autor, no longínquo século XVII, atacava o discurso fraudulento que atribuía as desgraças da sociedade às bruxas, estimulando a sua caçada. E alertava sobre o risco de as Nações perecerem por falta de conhecimento. É o que acontece no Brasil, mas não só. No Norte, a ignorância estimulada por interesses nada generosos, levou pessoas a beber desinfetante na esperança de matar o vírus causador da pandemia[3]; aqui, governistas apostam no uso de drogas sem eficácia e insistem no inexistente tratamento precoce[4]. Nos dois casos, as duas únicas medidas corretas foram ou são desprezadas: a manutenção do bom senso quanto à higiene pessoal e o uso de máscaras além da preservação do isolamento social. As pessoas, tal qual autômatos, seguem uma ordem de comando e não tem discernimento.

A recuperação do ambiente social e político degradado pela infâmia não será fácil. Séculos de descalabro pesam na formação da cultura e contaminam a sociedade em suas estruturas mais profundas. Nas primeiras décadas do século XX, o problema foi identificado e tratado como uma verdadeira missão por intelectuais que se engajaram na criação de instituições capazes de forjar uma elite renovada e orientada por um novo modo de pensar. Os cursos de Sociologia, a Universidade de São Paulo, os museus e bibliotecas, o Partido Comunista, resultam desse período, em que ares cosmopolitas penetraram no ambiente acanhado gerado pelo passado colonial e escravocrata. Mas perdemos a conexão com esta tradição.

Se quisermos sobreviver com esperança é urgente mobilizar esforços na luta contra tudo que estimule a ignorância e a mobilize em favor de projetos privatistas, excludentes, desconectados da herança intelectual e moral que ousou lançar luz sobre a escuridão. É hora de centrar esforços na construção de uma civilização baseada em valores fundados na dignidade do ser humano, independentemente de sua origem e condição. É hora de afirmar a razão contra as trevas; o homem contra o lucro. Acender uma vela na escuridão.

Referências:

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Volume 1.  7. edição. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SAGAN. Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela na escuridão. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.


[1] Contra ideologia, Ribeiro repete Bolsonaro e quer acesso antecipado ao Enem. Disponível em < https://educacao.uol.com.br/noticias/2021/06/03/contra-questoes-ideologicas-milton-ribeiro-quer-acesso-antecipado-a-enem.htm > , Acesso em 04 de junho de 2021.

[2] “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” (Benjamin, 1985, p. 224).

[3] Comentários de Trump sobre desinfetante para coronavírus são “perigosos”, dizem médicos. Disponível em: < https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/04/24/comentarios-de-trump-sobre-desinfetante-para-coronavirus-sao-perigosos-dizem-medicos.htm >, Acesso em 04 de junho de 2021.

[4] Insiste-se equivocadamente que cloroquina funciona em tratamento precoce. Disponível em: < https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/nise-insiste-que-cloroquina-funciona-em-tratamento-precoce,aea8891f5ab7600ffd4959940a0f66782sades34.html >, Acesso em 04 de junho de 2021.

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